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Compreender as Dificuldades na Leitura: Desvendando a Relação entre a Síndrome de Irlen e os Distúrbios de Processamento Visual pela Via Magnocelular


Compreender as Dificuldades na Leitura: Desvendando a Relação entre a Síndrome de Irlen e os Distúrbios de Processamento Visual pela Via Magnocelular

A oftalmologia concentra a maior parte de sua atenção na investigação e correção de falhas refracionais, desordens binoculares e alinhamento ocular, bem como no estudo de patologias oculares. Embora saibamos que os olhos compartilham a mesma origem embrionária e representem uma extensão do cérebro, a conexão entre eles e a visão cerebral muitas vezes é subestimada. É essencial reconhecer que a Visão é uma habilidade cerebral, e o olho atua como um receptor de estímulos luminosos, convertendo-os em sinais neurológicos que são processados em diversas áreas especializadas a partir de uma região primária, conhecida como V1. A visão abrange uma ampla gama de elementos, como contraste, cor, movimento, direção, texturas, tridimensionalidade, contextualização e memorização. Por essa razão, a visão é considerada o sentido mais impactante no processo educacional até os 12 anos de idade.


A qualidade da visão depende de dois aspectos fundamentais. O primeiro refere-se à condição anatômica, fisiológica e correlação óptica das estruturas oculares, como córnea e cristalino, que focalizam a luz precisamente na retina ou na íris, onde ocorre o controle dinâmico da luminosidade. O segundo aspecto envolve a condição neurosensorial, destacando como os estímulos fotoquímicos são processados pelos sistemas cerebrais integrados, resultando no aprimoramento progressivo dessas habilidades, especialmente nas "janelas de oportunidade" durante o desenvolvimento de redes neuronais.


Contexto Histórico:

No início da década de 80, o governo da Califórnia, visando a integração no mercado de trabalho de mais de 12.000 adultos considerados analfabetos funcionais como medida preventiva à criminalidade, conduziu um amplo estudo nessa população. Coordenando esse projeto, a professora Dra. Helen Irlen, psicóloga educacional da Universidade da Califórnia em Long Beach, identificou que uma parte significativa desse grupo apresentava sintomas visuais acentuados, prejudicando sua capacidade de leitura, e não se enquadrava nos padrões clássicos de Dislexia (Transtorno específico de aprendizagem com prejuízo na leitura e expressão escrita) e outros transtornos conhecidos na época. Após três anos de pesquisa financiada pelo governo federal, seus resultados e critérios para rastrear e identificar distúrbios visuais foram apresentados à American Psychological Association em 1983.


Inicialmente denominada de Síndrome da Sensibilidade Escotópica devido à fotofobia intensa e à preferência manifesta por ambientes pouco iluminados, a nomenclatura refletia a hipótese de que as distorções estavam relacionadas a alterações nos bastonetes da retina. Embora haja evidências de diferenças na distribuição de cones e bastonetes em portadores de dificuldades de leitura, indicando maior uso de informações da região parafoveal em comparação com leitores normais, teorias mais recentes apontam para alterações na transmissão de sinais dos sistemas Magno e Parvocelulares ao cérebro.


Atualmente, os sintomas associados a essa disfunção perceptual são caracterizados como Síndrome de Irlen (SI). A existência da SI como uma entidade clínica distinta foi comprovada por Muller (1985) e Adler & Atwood (1987).


Síndrome de Irlen:

Embora a leitura seja considerada uma habilidade natural e automática para muitos, cerca de 10 a 15% da população, incluindo crianças e adultos, enfrentam verdadeiros desafios nesse processo. A leitura é uma habilidade complexa e difícil, desenvolvida pela espécie humana, e, apesar de concedermos vários anos para aprender a falar, dedicamos apenas um ano ou pouco mais para que as crianças aprendam a ler. A leitura não é intuitiva como a fala, e, embora exista uma área cortical específica para a linguagem, o mesmo não ocorre para a leitura.


Ao ler, ocorre a estimulação da parte posterior do cérebro, incluindo o lobo occipital ativado pelo formato das letras, o giro angular transcreve os grafemas em fonemas, e a região de Wernicke acessa o significado. Esses processamentos neurológicos da leitura e linguagem são complexos, mas muitas vezes não concedemos o tempo adequado para esse aprendizado, especialmente diante da pressão crescente na educação infantil, onde as crianças são cobradas quanto à capacidade de reconhecer letras e associá-las a sons, muitas vezes antes de estarem maduras para a complexidade exigida pela leitura.


Excluindo-se transtorno do desenvolvimento intelectual, cegueira, etc., as duas principais causas específicas de dificuldades de leitura são a Dislexia (Transtorno do Específico de Aprendizagem com prejuízo na leitura e expressão escrita) e a Síndrome de Irlen. A Dislexia tem sido amplamente discutida, com amplo conhecimento sobre a importância do apoio multidisciplinar ao longo da vida para os casos mais severos. Nesse contexto, é crucial que professores e gestores tenham acesso a informações sobre a Síndrome de Irlen.


O reconhecimento da SI no Brasil teve início com pesquisas realizadas na Fundação Hospital de Olhos, Belo Horizonte-MG, onde crianças em idade escolar foram examinadas para prevenção e saúde visual. O intrigante era que, apesar de parecerem normais nos exames oftalmológicos rotineiros, algumas delas apresentavam dificuldades de aprendizagem significativas, associadas a queixas de fotofobia, prurido ocular, ardência, lacrimejamento, cansaço visual, sonolência, perda de concentração e baixo rendimento escolar. Estas dificuldades se manifestavam não apenas na leitura, mas também ao copiar, olhar para o quadro negro, praticar esportes e até mesmo durante viagens de ônibus ou carro, resultando em enjoos e pequenos acidentes.


A psicóloga educacional Helen Irlen descreveu esse conjunto de sintomas em 1983, dando origem à Síndrome de Irlen, uma alteração visuoperceptual causada por um desequilíbrio na adaptação à luz, resultando em alterações no córtex visual e déficits na leitura. A Síndrome de Irlen é hereditária e se manifesta sob maior demanda de esforço visual, especialmente na leitura e na escrita, embora também possa ocorrer em outras atividades visuais.


Indivíduos com Síndrome de Irlen apresentam distorções perceptuais durante a leitura, sendo a principal a "intolerância à luz" (fotofobia) e a "intolerância à luz cintilante". Essa fotofobia pode ocorrer tanto em ambientes externos quanto internos, sendo exacerbada pela luz fluorescente. Outras características incluem redução do alcance focal, dificuldades na manutenção do foco, estresse visual, fadiga rápida, irritabilidade e, em alguns casos, cefaleias.


O diagnóstico da Síndrome de Irlen é clínico, realizado por profissionais treinados no Método Irlen, sendo importante considerar a necessidade de uma equipe multidisciplinar para uma abordagem integrada. A Síndrome de Irlen não afeta a audição, a linguagem ou a inteligência, e suas intervenções não eliminam a necessidade de suporte em outras áreas. As transparências coloridas específicas são a principal intervenção, proporcionando alívio imediato e melhorando a fluência e a compreensão da leitura.


Considerando que 80% da aprendizagem nos primeiros anos é visual, o rastreamento da Síndrome de Irlen após o exame oftalmológico tradicional permite identificar distorções perceptuais que afetam significativamente o processo educacional até os 12 anos. Profissionais da saúde e educação capacitados pelo Método Irlen podem realizar o reconhecimento precoce da Síndrome de Irlen, possibilitando intervenções transdisciplinares para otimizar o desenvolvimento educacional e pessoal desses indivíduos.


Conclusão:

A visão é uma habilidade cerebral complexa e fundamental para o processo educacional. A relação entre os sistemas visuais e cerebrais é crucial para uma visão eficiente, que vai além da mera análise e correção de problemas refrativos. A Síndrome de Irlen destaca-se como uma condição que afeta a percepção visual durante a leitura, prejudicando significativamente o aprendizado e a qualidade de vida.


É essencial que profissionais da saúde e educação estejam cientes da Síndrome de Irlen e de suas características, buscando o diagnóstico precoce e a intervenção adequada. A abordagem multidisciplinar, envolvendo oftalmologistas, psicólogos comportamentais, psicopedagogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, educadores e outros profissionais, é fundamental para proporcionar suporte abrangente aos indivíduos com SI, permitindo que alcancem todo o seu potencial acadêmico e pessoal. Conscientizar sobre a importância da visão no processo educacional é um passo crucial para promover uma abordagem mais integral na educação e na saúde visual.



Dra. Valéria Gandolfi Geraldo

Pediatria - Neurologia Pediátrica

CRM-SP: 105.691 / RQE: 26.501-1


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