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Distúrbio do processamento auditivo central

Atualizado: Out 10


➡ O processamento auditivo é a capacidade que todos nós temos de entender o que é dito. Envolve várias áreas do cérebro que percebem e organizam os estímulos auditivos.

O distúrbio do processamento auditivo central é uma dificuldade em lidar com as informações auditivas. Dessa forma, é fundamental que se afaste qualquer problema de audição nestas crianças, para se ter certeza que a informação auditiva chegue, para depois ser processada.

Mesmo tendo audição normal, algumas habilidades auditivas estão prejudicadas, tendo como principal queixa a falta de entendimento, fazendo com que a criança peça para repetir diversas vezes o que está sendo dito, parecendo distraída, confundindo muitas vezes o quadro com déficit de atenção.

❗ O diagnóstico deve ser realizado o mais breve possível, para evitar prejuízos no aprendizado da criança.

Conheça o DPAC – Distúrbio do Processamento Auditivo Central

Quando se percebe que uma criança apresenta dificuldades de compreender a fala humana, a primeira suspeita que se costuma levantar é a da presença de uma deficiência auditiva. As perdas auditivas mais comuns são as do tipo condutivas e neurossensoriais. Porém, e se os exames audiométricos não apontarem alterações nos limiares auditivos (os sons mínimos que o indivíduo consegue ouvir)? Nesses casos, deve ser considerada e investigada a existência de outro tipo de distúrbio relacionado à audição, mas que, ao mesmo tempo, não é classificado como deficiência auditiva. É o pouco conhecido Distúrbio do Processamento Auditivo Central (DPAC), também chamado de Disfunção Auditiva Central ou Transtorno do Processamento Auditivo.

No DPAC, o paciente apresenta algum tipo de falha para captar, classificar, organizar ou interpretar eventos acústicos, mesmo que a sua audição esteja preservada. Isto é, o DPAC acontece quando há algum tipo de problema na “conversa” entre o ouvido e o cérebro, sem que ocorram, necessariamente, problemas ou déficits cognitivos.

O DPAC é caracterizado por afetar as vias centrais da audição, ou seja, as áreas do cérebro relacionadas às habilidades auditivas responsáveis por um conjunto de processos que vão da detecção à interpretação das informações sonoras. Na maior parte dos casos, o sistema auditivo periférico (tímpano, ossículos, cóclea e nervo auditivo) encontra-se totalmente preservado. A principal consequência do distúrbio está na dificuldade de processamento das informações captadas pelas vias auditivas. Assim, a pessoa ouvirá claramente a fala humana, mas terá dificuldades em interpretar a mensagem recebida.

As habilidades envolvidas no processamento auditivo são: detecção, localização e lateralização, discriminação, reconhecimento, aspectos temporais da audição (resolução, integração, mascaramento e ordenação) e escuta com estímulos degradados ou competitivos. O DPAC pode atingir uma ou várias destas habilidades, em diferentes graus.

As causas do DPAC

As causas do DPAC podem ser variadas e muitas vezes desconhecidas, contudo as mais comuns são de origem genética, otites de repetição, lesões cerebrais por anóxia ou traumatismo craniano, presença de outros distúrbios neurológicos, atraso maturacional das vias auditivas do Sistema Nervoso Central ou por envelhecimento natural do cérebro. Por isso, a maior parte dos diagnósticos é feita em crianças e idosos.

Os principais sintomas que podem ser percebidos na criança com DPAC: ✔️Dificuldade de memorização em atividades diárias.

✔️Dificuldades acadêmicas para ler e escrever.

✔️Fadiga atencional em aulas ou palestras.

✔️Troca de letras na fala ou escrita.

✔️Demora em compreender o que foi dito.

✔️Dificuldades em compreender informações em ambientes ruidosos.

✔️Desatenção e distração.

✔️Solicita repetição constante da informação.

✔️Agitação.

✔️Dificuldade para entender conceitos abstratos ou duplo sentido.

✔️Dificuldade para executar tarefas que lhe foram solicitadas.

Quando é necessário fazer o exame para indicar a presença de DPAC?

✔️São indicados para realizar esse exame todos aqueles indivíduos cujas histórias de vida sugerem uma dificuldade em ouvir ou compreender o que ouvem, considerando uma situação em grupo (escola, reunião, treinamentos), lugar em que se encontram (ruído, eco, etc.) e o contexto (piadas, ironias, etc.);

✔️Pessoa que apresentam dificuldades para localizar sons;

✔️Pessoas com dificuldade de memória;

✔️Pessoas com queixas ou sintoma de distração que chegue a prejudicar a realização de suas atividades cotidianas;

✔️Situações de insucesso escolar;

✔️Situações em que as respostas à terapia fonoaudiológica não transcorrem como esperado;

✔️Indivíduos muito agitados ou muito quietos;

✔️Trocas na hora de falar ou escrever;

✔️Dificuldades de concentração;

✔️ Dificuldades em adquirir uma segunda língua;

✔️Dificuldade de relacionamento interpessoal;

✔️Quando o paciente apresenta um histórico significativo de infecções de ouvidos ou da garganta.

Condições Coexistentes ao DPAC

Segundo a American Speech-Language Hearing Association (ASHA), uma associação profissional e científica estadunidense, 7% das crianças em idade escolar apresentam DPAC, que é um distúrbio cognitivo mais comum em meninos do que em meninas. Pode associar-se a outras doenças como: Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), Transtorno de Linguagem e Transtorno do Espectro Autismo. Estas doenças fazem com que as crianças desenvolvam comportamentos semelhantes ao DPAC, tornando o diagnóstico mais difícil. A ASHA aponta que, 20% da população entre crianças, jovens e adultos têm este déficit, porém são poucos os casos diagnosticados e que estão ou passaram por tratamento.

É comum a pessoa com DPAC ser diagnosticado equivocadamente como dislexia ou TDAH tipo desatento.

O Diagnóstico do DPAC

Nos mais jovens, é de extrema importância que o diagnóstico seja efetuado o quanto antes, para que as dificuldades no aprendizado escolar sejam superadas mais facilmente. O cérebro humano tem, principalmente durante a infância, uma grande flexibilidade em seu desenvolvimento, o que é chamado de plasticidade neural. Com o tratamento fonoaudiológico e o apoio de uma equipe pedagógica adequada desde cedo, a criança possuirá muito mais chances de um ótimo desempenho escolar, pois seu cérebro estará sendo treinado a compensar, através da propriedade da plasticidade citada acima, as falhas neurológicas das vias auditivas centrais.

O diagnóstico do DPAC é composto de procedimentos um pouco mais elaborados do que as análises audiométricas comuns, pois é importante diferenciar a perda de audição localizada no órgão sensorial (ouvido) da alteração do processamento auditivo central. Para isso, é exigido, além das audiometrias padrão, testes para PAC (discriminação, temporais, dicóticos, monóticos, baixa redundância, eletrofisiológicos e eletroacústicos) e de avaliação do desenvolvimento linguístico e do comportamento auditivo. Sugere-se que a idade mínima para que tal diagnóstico seja realizado é a partir dos sete anos, e estes exames são realizados pelo próprio profissional fonoaudiólogo, com ou sem o uso de cabina acústica (o que depende da especificidade de cada caso), porém, ainda não são muito comuns e não costumam fazer parte da rotina dos serviços públicos brasileiros (SUS). Tem cobertura obrigatória pelos convênios particulares pelo ROL da ANS.

Os exames apontarão em quais habilidades auditivas a criança possui maior dificuldade, e isto servirá de orientação para a escolha dos exercícios e das técnicas de treinamento auditivo que o fonoaudiólogo exercitará com a criança em um trabalho terapêutico. Atividades, jogos e o uso da cabina acústica são alguns dos recursos utilizados na reabilitação.

O exame do Processamento Auditivo Central

1️⃣Como é feito o exame para detectar o DPAC?

A avaliação para identificar o DPAC consiste em mensurar as habilidades auditivas, por meio de testes especiais para cada idade.

O processo é dividido em:

✔️Meatoscopia (na qual se verifica se há obstrução no meato acústico, com presença de material ceroso no ouvido);

✔️Anamnese (entrevista com o paciente);

✔️Aplicação de estímulos auditivos acusticamente controlados, de acordo com a faixa etária de cada paciente.


2️⃣Qual é o profissional habilitado a fazer esse exame para detectar o DPAC?Somente o fonoaudiólogo com especialização em DPAC pode realizar esse rastreio.

3️⃣Que aparelhos são utilizados no exame do DPAC?

O exame para detectar o DPAC é realizado em cabine acústica e, durante a avaliação, o profissional também utiliza o audiômetro (instrumento elétrico capaz de medir os limites de audição) e um tocador de CD e/ou MP3 player, para a realização dos estímulos acústicos necessários.

4️⃣Quanto tempo dura o exame para detectar o DPAC?

O exame para detectar o DPAC dura, em média, duas horas.

5️⃣O paciente sente algum incômodo na hora de realizar o exame de DPAC?

Não, a pessoa não sente nenhum tipo de incômodo ou dor causados pelo exame de DPAC.

O exame, entretanto, pode ser cansativo, devido ao seu tempo prolongado de duração. Mas esse período de interação entre o fonoaudiólogo e o paciente é importante para uma avaliação precisa das capacidades auditivas do indivíduo.

6️⃣No caso de criançaa, elas devem estar acompanhadas dos pais na hora de fazer o exame de DPAC?

Isso varia de paciente para paciente, mas normalmente a criança fica só com o fonoaudiólogo.

7️⃣É necessária alguma preparação prévia?

Como todo e qualquer teste auditivo, o exame de DPAC também exige um repouso acústico de 14h, antes do exame. Isso significa que o paciente deve se abster de:

✔️ Locais com ruído ambiental excessivo (como áreas de trabalho barulhentas, com sons intensos e repetitivos).

✔️Uso de fones de ouvido (música, celular, jogos, etc.).

✔️Locais com música ou transmissão acústica alta.

8️⃣Tudo é feito em uma única sessão ou é necessário mais de um encontro com o fonoaudiólogo?

Normalmente todos os testes são realizados em uma sessão, mas caso seja necessário, ele pode ser decomposto.

9️⃣O diagnóstico para o DPAC sai na hora ou é necessário cruzar com outros resultados?

O resultado sai na hora, mas é necessário fazer uma análise quantitativa e qualitativa.

Tratamento do DPAC

O treinamento auditivo é um dos métodos terapêuticos utilizados na reabilitação auditiva no DPAC e pode ser definido como o uso de um conjunto de tarefas acústicas pré determinadas com objetivo de ativar e/ou modificar o sistema auditivo. Existem dois modelos de treinamento auditivo, o informal, que se refere a intervenções terapêuticas sem o uso de equipamentos específicos para o controle dos estímulos acústicos trabalhados. Muitas vezes é indicado para crianças menores por conta de fatores como a atenção e motivação, visto que a atividade pode ser conduzida com maior facilidade por meio do lúdico, como jogos e brincadeiras. E o formal, que refere-se ao processo terapêutico onde são utilizados equipamentos eletroacústicos que possibilitam o controle dos estímulos utilizados em sua duração, frequência e intensidade. Este modelo pode ser conduzido, por exemplo, com o uso de um computador e em cabina acústica com o uso do audiômetro.

Um trabalho multidisciplinar que envolva também os pais, a escola e os professores é de extrema importância para o desenvolvimento global do indivíduo com DPAC.

O DPAC na escola

Devido às dificuldades de se processar as informações adquiridas pelas vias auditivas, o aluno com DPAC poderá enfrentar grandes obstáculos no modelo de ensino tradicional brasileiro, em que as aulas são ministradas oralmente pelo professor. Adiciona-se a essa questão o desconhecimento do DPAC pelas escolas e seus profissionais, o que acaba dificultando ainda mais as vivências do aluno nesse ambiente, podendo gerar desde baixa autoestima até dificuldades na socialização.

Na maioria escola brasileiras, os professores não estão habituados a lidar com o distúrbio do processamento auditivo central, e nem o conhecem. Portanto, o fonoaudiólogo tem que ir à escola orientar como deverá ser o processo de ensino para o aluno.

É grande a importância de um trabalho multidisciplinar que integre a família, a escola, os professores, os profissionais fonoaudiólogos e psicopedagogos para apoiarem o aluno com DPAC, oferecendo alternativas de absorção dos conteúdos e estimulando o aprendizado dessas crianças.

Em momentos importantes da vida da criança, como a alfabetização e demais processos acadêmicos, os professores não só podem como devem utilizar estratégias que facilitem o input (entrada) da informação auditiva a crianças com diagnóstico de DPAC.

Algumas recomendações aos professores:

✔️colocar o aluno sentado na primeira carteira da fileira do meio, próximo a ele, longe das portas, janelas e de distrações. Proporcionar menor distância entre ele e a criança.

✔️quando falar, olhar diretamente para o rosto do aluno e próximo a ele. Dar as explicações direcionada somente ao aluno.

✔️procurar falar de forma clara e pausada, de frente para ao aluno.

✔️evitar falar em momentos de muito barulho.

✔️sempre que possível fornecer as instruções e atividades próximo ao aluno.

✔️certificar se o aluno realmente entendeu os comandos e o que deve ser realizado.

✔️ se possível, dar mais tempo para a realização da avaliação.

✔️se necessário, fazer a leitura da prova para ele.

✔️utilizar o método fônico.

✔️controle acústico do ambiente onde o aluno está exposto deve ser o mais silencioso e menos reverberante possível, objetivando a compreensão da informação com o mínimo de ruído mascarante.

Há várias estratégias que se pode ter de acordo com a necessidade.

Tratamentos alternativos na escola: Além do acompanhamento de uma equipe multidisciplinar, outra opção para auxiliar a criança com DPAC é o uso do Sistema de Frequência Modulada (FM) na escola, pois este equipamento também pode ser utilizado em indivíduos sem perda auditiva periférica. O FM amplificará a voz do professor, fazendo com que a criança volte sua atenção mais facilmente para o que este explica em sala de aula. E se, além do DPAC, o diagnóstico também apontar perda auditiva condutiva ou neurossensorial, a criança deverá usar AASI (Aparelhos de Amplificação Sonora Individual) ou Implante Coclear, dependendo do grau de sua perda. É importante uma estimulação auditiva precoce para se prevenir o DPAC.

O DPAC pode vir a ocorrer de forma secundária à outra alteração, como por exemplo, a perda auditiva, tanto em crianças, adultos e idosos. O nosso sistema auditivo é plástico, ou seja, ele se modifica de acordo com seu uso. Esta plasticidade pode ocorrer de forma “positiva”, como são os casos dos treinamentos, mas também ela pode ocorrer de forma “negativa” referindo-se a perda da capacidade de desempenhar determinada tarefa por algum motivo. Por exemplo, se uma criança vier a ter uma perda auditiva permanente e não for realizado um processo de reabilitação com o uso de Aparelho de Amplificação Sonora Individual (AASI) ou outro dispositivo auditivo que permita que o som ambiental seja detectado em um nível de intensidade apropriado, as habilidades envolvidas no processamento da informação acústica não estarão sendo utilizadas adequadamente e, em consequência, o sistema nervoso auditivo central entende que este processo não possui tanta importância, reduzindo assim, as conexões sinápticas e enfraquecendo este processo.

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Dra. Valéria Gandolfi Geraldo

Pediatria - Neurologia Pediátrica

CRM-SP: 105.691 / RQE: 26.501-1


Referências consultadas:

(Central) Auditory Processing Disorders. Disponível em: http://www.asha.org/policy/TR2005-00043

PEREIRA L.D. & SCHOCHAT,E. Processamento Auditivo Central – manual de avaliação. São Paulo, Lovise, 1997b. p.49-59.

______. Testes Auditivos Comportamentais para Avaliação do Processamento Auditivo Central. Pró-Fono. 2011. 82p.

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