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Fenômenos Paroxísticos Durante o Banho e Epilepsia de Água Quente

Atualizado: Jan 19


A “epilepsia reflexa” é definida por crises epilépticas precipitadas por um estímulo sensorial externo. As epilepsias reflexas, na infância, incluem a epilepsia da água quente, a epilepsia mioclónica reflexa da infância, a epilepsia fotossensível, epilepsia da leitura e a epilepsia relacionada com a alimentação. A crise epiléptica, desencadeada pela água quente, durante o banho, é conhecida como “epilepsia do banho” ou “epilepsia de água quente” (EAQ). Foi I. M. Allen quem a descreveu, pela primeira vez, em 1945, num rapaz de 10 anos de idade com episódios de rigidez, perda da consciência e olhar fixo, quando era submergido em água quente. Posteriormente, foram descritos casos semelhantes, embora raros, na Austrália, Japão, Canadá e Estados Unidos da América. Os trabalhos que reúnem um maior número de doentes são originários dos países orientais, em particular, da Turquia e Índia. Não se conhece a incidência e prevalência desta entidade na população mundial, mas sabe-se que constitui 2,5 a 9% de todas as epilepsias na Índia. A patogênese exata desta forma de epilepsia reflexa é ainda desconhecida. Estudos experimentais em ratos, associados a uma investigação minuciosa dos doentes com EAQ, sugerem como possível causa uma termorregulação aberrante, num indivíduo geneticamente susceptível, associada a factores ambientais predisponentes. Os doentes com EAQ têm algumas características em comum no que diz respeito ao sexo, idade de início, factores precipitantes, tipo de crises epilépticas, comportamento compulsivo e resposta ao tratamento. É mais frequente em crianças, em particular, na primeira década de vida e no sexo masculino. A crise epiléptica é desencadeada por um estímulo táctil e térmico complexo: contacto com água quente (entre os 37 e os 48ºC), imersão em água e/ou contacto de determinadas partes do corpo com a água (ex.: deitar água pela cabeça). Cerca de 70% das crises são focais disperceptivas, que evoluem ou não para tônico clônica bilateral; em 33% dos casos são primariamente generalizadas, habitualmente tónico-clónicas. Podem iniciar-se por uma sensação de medo ou bem-estar, pausa da atividade em curso, vertigem, alucinações visuais e auditivas, discurso confuso e automatismos complexos. Posteriormente, surge perda de consciência, hipo ou hipertonia, olhar fixo, retroversão ocular, contratura dos músculos faciais, atividade motora, focal ou generalizada e cianose. A sua duração oscila entre os trinta segundos e os três minutos e podem surgir em qualquer altura do banho. No período pósictal, podem ocorrer cefaleias ou sonolência.


O exame neurológico bem como os estudos de neuroimagem são, na sua grande maioria, normais. O eletroencefalograma (EEG) interictal mostra alterações difusas inespecíficas em 15 a 20% dos casos. Quando se consegue realizar um EEG ictal podem observar-se descargas paroxísticas difusas, geralmente com um predomínio sobre o hemisfério esquerdo e, em menor número, alterações paroxísticas focais, quase sempre localizadas aos lóbulos temporais. O diagnóstico definitivo é feito pela demonstração de alterações no EEG ictal, durante o banho, com monitorização e registo simultâneo de eletrocardiograma (ECG).


O tratamento consiste em evitar o estímulo, o que nem sempre é fácil; não só porque o fator precipitante pode ser complexo e, como tal, difícil de identificar, mas porque também há doentes que têm um comportamento compulsivo e auto-induzem as crises. Assim, nos doentes com comportamento compulsivo, com outro tipo de epilepsia associada e naqueles em que a mudança dos hábitos de higiene não é suficiente para evitar as crises, advoga-se o uso de antiepilépticos. A carbamazepina, o valproato de sódio e o fenobarbital, em monoterapia, parecem ser eficazes. Há ainda quem defenda o uso de diazepam profiláctico e esporádico, antes do banho, como alternativa ao consumo regular de antiepilépticos em alguns casos particulares. Há necessidade de uma modificação nas condições do banho que deverá passar a ser feito com a ajuda duma esponja, em pé, com água a uma temperatura de 32-34ºC.


O prognóstico é bom, de um modo geral, ocorrendo uma remissão espontânea ao fim de alguns meses a anos. Está descrito, contudo, o aparecimento de uma epilepsia não reflexa em 25 a 30% dos casos. É consensual que qualquer criança que apresente um evento paroxístico durante o banho cujos sintomas sugerem uma crise epiléptica deve fazer um registo EEG/ECG durante o banho. Contudo, este exame tem as suas limitações técnicas e é difícil de obter, nomeadamente, por recusa de alguns pais em submeter os filhos ao teste de provocação, por recusa do doente em colaborar ou dificuldade em reproduzir em laboratório o ritual do banho (o ambiente estranho, os eléctrodos colocados na cabeça) e, consequentemente, a estimulação sensorial.


ATENÇÃO: Esta postagem não tem o objetivo de substituir a consulta com o neurologista pediátrico. Somente o médico tem condições de avaliar caso a caso e somente ele pode orientar o tratamento e a prescrição de medicamentos ou vacinas.

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Dra. Valéria Gandolfi Geraldo

Pediatria - Neurologia Pediátrica - Desenvolvimento e Comportamento Infantil - Transtornos do Neurodesenvolvimento - Epilepsia

CRM-SP: 105.691 / RQE: 26.501-1

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