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O papel da Neurologia Pediátrica no diagnóstico do Autismo.

Atualizado: Mar 17


A neuropediatria, também conhecida como neurologia infantil ou neurologia pediátrica, é um ramo da neurologia dedicada a estudar doenças e disfunções do sistema nervoso de crianças e adolescentes (zero a 18 anos).

Para entendermos melhor o papel da neuropediatria no dia a dia da criança com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e de suas famílias, vamos a alguns esclarecimentos:

Quando os pais devem procurar a neuropediatria?

Esse questionamento certamente deve passar pela cabeça de muitos pais, não é verdade? Para esclarecer essa dúvida, rapidamente explico que a palavra de ordem é observação.

Se os pais perceberem que a criança, mesmo muito pequena, entre 4 e 9 meses, não está se desenvolvendo ou está apresentando um comportamento não esperado, é indicada a avaliação de um neuropediatra.

Os casos mais indicados são:

  • Regressão ou atraso de fala.

  • Dificuldade de interação com outras crianças ou adultos.

  • Olhar pouco nos olhos ou dificuldade para manter o contato visual por mais de um minuto.

  • Incômodo com o contato físico

  • Apresentar interesses muito restritos e exagerados por determinado objeto ou atividade (água, objetos que rodam, seletividade por uma cor específica).

  • Dificuldade para atenção compartilhada.

  • Dificuldade para usar pronomes e verbos na primeira pessoa após os 3 anos. Como por exemplo, dizer Pedro quer ou invés de eu quero.

  • Manias (enfileirar objetos, fazer determinado som).

  • Stims ou stimming, que são movimentos autorregulatórios ou uma forma de expressão e comunicação. Os chamados movimentos repetitivos, como, por exemplo, andar nas pontas dos pés, girar no próprio eixo, andar de um lado ao outro, puxar o cabelo, bater a mão na orelha ou cabeça, puxar os cabelos

  • Hiperfoco ou foco reduzido de interesses.

  • Brincar apenas com parte de um brinquedo (rodar a roda do carrinho, por exemplo).

  • Compulsão ou seletividade alimentar (só come alimentos de determinada consistência ou cor, rejeitar algo novo).

  • Comportamento de cheirar, colocar na boca ou pegar objetos, pela sensação em si, sem o objetivo de exploração do objeto.

  • Dificuldade para usar a comunicação verbal ou não verbal.

  • Dificuldade para usar tchau e oi de forma espontânea e adequada após 12 meses.

  • Esquecer o nome já aprendido de objetos ou pessoas comuns ao dia a dia dela, como de colegas da escola, após os 2 anos.

  • Medo, ansiedade e nervosismos inadequados para a situação.

  • Dificuldade para mudanças ou variar rotina.

  • Hipersensibilidade a estímulos sonoros.

  • Aparente indiferença a dor ou temperatura.

  • Dificuldade para ficar com roupa e sapato após 2 anos. Só aceita determinada peça, tecido ou cor.

  • Dificuldade para abstrair ou brincadeiras imaginativas. Dificuldade de brincar de faz de conta após 12 meses.

  • Distúrbios do sono (geralmente agitação ou insônia).

Esses sintomas podem instigar os pais a visitarem um neuropediatra, mas não necessariamente significam que a criança é autista. Pode não se tratar de TEA, uma vez que há diversos quadros comportamentais possíveis dentro destas características. O diagnóstico fechado de TEA é dado, geralmente, pelo neurologista pediátrico ou pediatra do desenvolvimento e comportamento ou psiquiatra da infância e adolescência.

A neuropediatria no dia a dia da família do autista

O acesso a informações sobre o TEA está cada vez maior, o que tem feito com que a busca por um diagnóstico seja feita cada vez mais cedo, o que favorece muito a criança. Os pais e a escola estão melhor informados e atentos aos sinais do TEA. E vale ressaltar que, quanto mais cedo fecharmos o diagnóstico e iniciarmos o tratamento, melhor a resposta da criança. O diagnóstico após os 3 anos é, hoje, considerado tardio.


Não há marcadores biológicos, exames complementares,  para o diagnóstico de crianças com desenvolvimento atípico. O médico realiza um trabalho de detetive. Através da anamnese, exame físico, relatos das pessoas que convivem com o paciente, parecer pedagógico dos professores e avaliações multidisciplinares dos terapeutas é que o médico poderá dar o diagnóstico. Analisa tudo para o parecer correto.

A neuropediatria é responsável por fechar o diagnóstico de TEA, mas as terapias envolvem outras especialidades, como psicologia, fonoaudiologia, psicopedagogia, arteterapia, musicoterapia, equoterapia, educador físicos, terapia ocupacional, nutrição etc.


Precisa-se de uma equipe multidisciplinar (terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, psicólogos e psicopedagagos) para auxiliarem o médico no laudo correto, sem achismos e com avaliações baseadas em protocolos padronizados e validados no Brasil para o diagnóstico de casos de desenvolvimento atípico. Sim, os terapeutas também são importantes para o diagnóstico, nem todos os testes/protocolos podem ser aplicados por médicos, há os que só podem ser feitos por determinadas graduações.  É isso é uma questão difícil das famílias e até de gestores compreenderem.  Noventa e oito porcento dos TEA's tem Transtorno do Processamento Sensorial e, por isso, a avaliação do terapeuta ocupacional com certificação internacional em Integração Sensorial é importante. Sessenta e cinco porcento dos TEA's tem apraxia da fala da infância, logo, a avaliação do fonoaudiólogo especialista em linguagem e curso PROMPT não pode faltar. A Deficiência Intelectual também é uma condição coexistente ao TEA frequente e, consequentemente, o neuropsicólogo também se faz necessário para o diagnóstico.


Testes, Escalas e Protocolos: são minuciosos e com variação no tempo de aplicação.

A avaliação do desenvolvimento e comportamento infantil é demorada. Os testes, escalas e instrumentos padronizados aplicados podem ser:


Instrumentos ADOS-2 (Protocolo de Observação para Diagnóstico de Autismo) e ADI-R (Entrevista Diagnóstica para Autismo Revisada): padrão outro no diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA). O ADI-R é aplicado à partir de 18 meses de idade mental e o ADO-2 à partir de 12 meses de idade cronológica.


Questionário de Comunicação Social (SCQ): instrumento de avaliação de suspeita de TEA à partir de 4 anos.

Sistema PROTEA-R de avaliação de suspeita de TEA e outros Transtornos da Comunicação (Crianças em torno de 24 a 60 meses de idade, especialmente àquelas não verbais).

Escala Bayley III de Desenvolvimento do Bebê e da Criança Pequena (Crianças de 16 dias a 42 meses): padrão ouro de avaliação do desenvolvimento infantil.

Teste de Triagem de Desenvolvimento Infantil Denver II (Crianças de zero a 6 anos).

Inventário Portage Operacionalizado de avaliação do Desenvolvimento Infantil (Crianças zero a 6 anos).

Protocolo VB-Mapp (Avaliação de Marcos do Comportamento Verbal e Programa de Nivelamento): avaliação para ver em que ponto a criança com desenvolvimento atípico está em comparação a uma criança de desenvolvimento típico. É indicado para crianças com desenvolvimento compatível entre zero a 48 meses.

Checklist Curriculum do Modelo Denver de Intervenção Precoce Para Crianças Pequenas com Autismo – ESDM: avaliação para ver em que ponto a criança com desenvolvimento atípico está em comparação a uma criança de desenvolvimento típico. É indicado para crianças de até 5 anos de idade.

Protocolo PREAUT: instrumento de rastreamento de TEA à partir de 4 meses.


Protocolo IRDI (Indicadores de Risco para Desenvolvimento Infantil): instrumento de rastreamento de TEA em crianças de zero a 18 meses.


Escala M-CHAT-R/F (Escala para Rastreamento de Autismo Revisada): instrumento de rastreamento precoce do TEA, em crianças de 16 a 30 meses.


Escala CARS-2 (Escala de Pontuação do Autismo na Infância): crianças e adolescente de 2 a 17 anos.


Escala de avaliação de Traços Autísticos (ATA): crianças e adolescente de 2 a 17 anos.


Inventário de Comportamentos Autísticos (ICA ou ABC): instrumento de triagem de TEA em pessoas com Deficiência Intelectual (crianças a partir de 2 anos). É usado no inicio do diagnóstico e lista comportamentos atípicos.


Checklist de Avaliação do tratamento do TEA (ATEC): instrumento de avaliação para ser aplicado antes e depois do inicio do tratamento do TEA. Ajuda a determinar a extensão dos comportamentos atípicos e se estão melhorando ou piorando.

Questionário sobre Idades e Estágios (ASQ-3: "Ages and Stages Questionnaires"): instrumento para avaliar o desenvolvimento de crianças entre 1 e 66 meses.


Escala de Comportamentos Adaptativos Vineland-3: avalia o comportamento adaptativo do nascimento até a vida adulta (90 anos).


Influência do esporte no tratamento do TEA

O esporte também é parte importante no tratamento do TEA. Durante o exercício são liberadas substâncias no cérebro (especialmente a dopamina), que geram a sensação de bem-estar e diminuem a ansiedade.


Além disso, no esporte a criança tem a oportunidade de desenvolver a interação com os demais, aprende a seguir regras e limites e explora o meio. Sempre que possível, a prática de atividade física deve ser estimulada pelos pais.


Medicamento no TEA

Em certos casos, o neuropediatra inclui medicamentos no processo de tratamento de TEA. A indicação dos medicamentos tem como objetivo atuar nos sintomas quando estão muito acentuados e não são atenuados com as terapias. Entre esses sintomas estão irritabilidade, agressividade, distúrbios do sono, labilidade emocional, estereotipias (movimentos repetitivos) importantes etc.

O neurologista pediátrico é o primeiro profissional que os pais devem procurar ao perceberem alguma alteração no desenvolvimento da criança. Lembrando que um diagnóstico precoce tende a trazer resultados mais efetivos para o bom desenvolvimento dos filhos. Diante de qualquer suspeita de que algo não vai bem com a criança, os pais devem procurar um especialista. Mesmo diante de um diagnóstico de TEA, há muito a ser feito. As crianças sempre nos surpreendem com os progressos que alcançam.

Gostou da nossa postagem? Eu espero que sim! Caso haja algum assunto relacionado ao autismo que você tenha dúvidas, deixe sua sugestão em nossos comentários e fique à vontade para compartilhar nossos materiais nas redes sociais!

ATENÇÃO: Esta postagem não tem o objetivo de substituir a consulta pediátrica. Somente o médico tem condições de avaliar caso a caso e somente ele pode orientar o tratamento e a prescrição de medicamentos.


LEIA TAMBÉM: O papel do pediatra no diagnóstico do Autismo

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Dra. Valéria Gandolfi Geraldo

Pediatria - Neurologia Pediátrica - Epilepsia - Neurologia Cognitiva e do Comportamento Desenvolvimento e Comportamento Infantil - Transtornos do Neurodesenvolvimento Transtorno do Espectro Autista - Transtornos Comportamentais Escolares

Capacitação do Protocolo VB-Mapp e das Escalas Bayley III

CRM-SP: 105.691 / RQE: 26.501-1


Sugestões de Leitura:

“Identificação, Avaliação e Manejo de crianças com Transtorno do Espectro Autista”, da Academia Americana de Pediatria.👇🏻

https://pediatrics.aappublications.org/content/pediatrics/145/1/e20193447.full.pdf

"Promovendo o desenvolvimento ideal: Triagem de Problemas comportamentais e emocionais." da Academia Americana de Pediatria. 👇🏻 https://pediatrics.aappublications.org/content/pediatrics/135/2/384.full.pdf

"Triagem precoce para Autismo/ Transtorno do Espectro Autista" da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) 👇🏻 https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/2017/04/19464b-DocCient-Autismo.pdf

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