• Clinica NeuroGandolfi

O que é Hiperlexia?

Atualizado: h√° 6 dias


ūüďƬ†Voc√™ sabe o que √© hiperlexia?


‚Ěó¬†Nada mais √© do que uma alta capacidade de leitura e uma esp√©cie de obsess√£o por letras e n√ļmeros, geralmente acompanhada de uma esp√©cie de atraso em outras √°reas do desenvolvimento infantil.


Ela pode ser compreendida a partir de três características principais:


‚ě°¬†Capacidade precoce de leitura;

‚ě°¬†Dificuldade em lidar com a linguagem oral;

‚ě°¬†Inadapta√ß√£o social dos comportamentos.


Hiperlexia e Autismo

O fascínio de muitas crianças autistas por letras é algo que chama muito a atenção de todos que convivem com elas e também dos pesquisadores da área do neurodesenvolvimento.


H√° relatos de crian√ßas autistas que s√£o capazes de ler aos 18 meses de idade. Por√©m, a precocidade n√£o √© o √ļnico aspecto que desperta interesse. H√° evid√™ncias de que todo o processo de aquisi√ß√£o da linguagem verbal (oral e escrita) ocorra de maneira muito diferente no c√©rebro das crian√ßas autistas em rela√ß√£o ao que conhecemos nos neurot√≠picos. Entender melhor esse processo t√£o particular √© de suma import√Ęncia para que possamos oferecer interven√ß√Ķes terap√™uticas e pedag√≥gicas apropriadas e favor√°veis.


Na busca de um modelo cognitivo que explique a hiperlexia, a neuroci√™ncia vai encontrando pistas de como o c√©rebro autista percebe e elabora outras informa√ß√Ķes, de forma consistente com o que sabemos atualmente a respeito da conectividade neuronal no autismo. √Č certamente uma perspectiva que nos desafia a expandir nossos conceitos.


Chamamos de hiperlexia a aquisição precoce de habilidades de leitura, acompanhada por acentuada preferência por material escrito. Outras características descritas envolvem a competência de leitura avançada em relação à compreensão/ nível de inteligência e a coexistência de um transtorno do neurodesenvolvimento.


O termo hiperlexia foi cunhado em 1967, mas h√° men√ß√Ķes a perfil hiperl√©xico desde 1918. Com frequ√™ncia, √© mencionada como uma das poss√≠veis habilidades at√≠picas que ocorrem no autismo. Hans Asperger descreveu crian√ßas que aprendiam a ler com grande facilidade, apesar de serem ‚Äúdif√≠ceis de ensinar‚ÄĚ.


N√£o temos informa√ß√Ķes seguras sobre a preval√™ncia de hiperlexia na popula√ß√£o geral. Dados dispon√≠veis sobre a preval√™ncia da hiperlexia no autismo devem-se ao fato da hiperlexia geralmente anteceder o diagn√≥stico de autismo e ao crescente interesse nesta rela√ß√£o. A estimativa varia de 6 a 20%, dependendo da rigidez dos crit√©rios utilizados para a defini√ß√£o de hiperlexia. Dos hiperl√©xicos autistas, 79% eram do sexo masculino, a maioria com intelig√™ncia m√©dia avaliada por testes n√£o verbais (consistente com autismo n√£o-sindr√īmico) e atraso de fala. Foram encontrados relatos de hiperlexia tamb√©m em s√≠ndromes gen√©ticas e outras condi√ß√Ķes do neurodesenvolvimento, por√©m 84% dos casos inclu√≠dos nesta revis√£o tinham diagn√≥stico de autismo ou caracter√≠sticas aut√≠sticas.


A leitura é uma habilidade complexa que envolve três principais sistemas neurais:


1.Reconhecimento de palavras baseadas em suas caracter√≠sticas visuais: n√≠vel de processamento visual que extrai informa√ß√£o invari√°vel da estrutura visual das palavras para construir uma representa√ß√£o (independente das varia√ß√Ķes de fonte, tamanho, cor e localiza√ß√£o no campo visual). A ativa√ß√£o desta √°rea cerebral √© sens√≠vel a regularidade ortogr√°fica (especializa√ß√£o funcional moldada de acordo com propriedades lingu√≠sticas arbitr√°rias, determinadas pela cultura ‚Äď ou seja, moldada pela experi√™ncia da leitura).


2.Conversão de grafemas (informação linguística visual) a fonema (informação linguística oral). Rota lexical (biblioteca ortográfica do leitor, requer conhecimento prévio da palavra) e sublexical (mapeia palavra da esquerda para a direita, associando cada letra ao seu som correspondente). Leitores experientes usam as duas, alternando-as de acordo com o texto.


3.Acesso ao l√©xico e significados de palavras e senten√ßas. O acesso ao significado ocorre quando a decodifica√ß√£o da escrita atinge conhecimento sem√Ęntico previamente adquirido. Para o leitor iniciante o acesso sem√Ęntico √© limitado pelo grande esfor√ßo na decodifica√ß√£o. Nas crian√ßas t√≠picas, h√° forte correla√ß√£o entre precis√£o e compreens√£o da leitura.


Esses sistemas n√£o funcionam em sequ√™ncias fixas - nem em rela√ß√£o aos per√≠odos de desenvolvimento, nem no momento da leitura ‚Äď e sim de forma paralela.


Como ocorre este processo no desenvolvimento típico?


Aprender a ler significa adquirir habilidades que permitam √† crian√ßa identificar e entender palavras escritas. A crian√ßa progride por meio de est√°gios sucessivos definidos por diferentes estrat√©gias de decodifica√ß√£o, em experi√™ncias heterog√™neas. As habilidades de linguagem oral aparecem como um dos mais importantes fatores para a leitura nos neurot√≠picos. Primeiro associam a escrita com as palavras que escutam, depois aprendem a associa√ß√£o entre som e letra. Por volta dos 5 anos, passam a acessar explicitamente a associa√ß√£o entre s√≠mbolos gr√°ficos que comp√Ķes o alfabeto e os sons da fala e conhecem as s√≠labas mais comuns. Em torno dos 7 anos, adquirem compet√™ncia para decodificar palavras novas, passando para padr√Ķes ortogr√°ficos cada vez mais complexos. No decorrer deste processo, as crian√ßas concentram-se primeiro em decodificar palavras individuais, para depois entender o significado das senten√ßas, at√© tornarem-se leitores fluentes e alcan√ßar a interpreta√ß√£o de elementos impl√≠citos do texto.


Como ocorre este processo na hiperlexia autística?


1. Percep√ß√£o visual: h√° extensa literatura sobre performance perceptual aumentada no autismo, tanto para tarefas est√°ticas quanto din√Ęmicas. Autistas possuem capacidade superior de processar simultaneamente amplas matrizes de informa√ß√£o visual e campos visuais mais amplos e apresentam tamb√©m melhor desempenho que neurot√≠picos em detec√ß√£o e manipula√ß√£o de padr√Ķes, busca visual, rota√ß√£o mental e testes de figuras escondidas, bem como tarefas de integra√ß√£o espacial. Essas habilidades podem expandir-se para a leitura hiperl√©xica, na qual as palavras s√£o percebidas como padr√Ķes visuais complexos (abordagem configuracional ao inv√©s de an√°lise serial de letras individuais). Estudos de Resson√Ęncia Nuclear Magn√©tica (RNM) funcionais mostraram maior ativa√ß√£o de regi√Ķes envolvidas no processamento visual em autistas. H√° evid√™ncias de que essas regi√Ķes sejam mais independentes das √°reas envolvidas no processamento fonol√≥gico e l√©xico-sem√Ęntico em rela√ß√£o ao que ocorre nas crian√ßas t√≠picas. Outras diferen√ßas observadas incluem menor ativa√ß√£o das regi√Ķes frontais nos autistas (associadas √†s fun√ß√Ķes executivas) e ativa√ß√£o diferenciada dos hemisf√©rios cerebrais (lateraliza√ß√£o direita - como tem sido relatado em outras habilidades savant).


2. Conversão grafema-fonema: testes indicam acesso à memória das palavras inteiras, bem como a coexistênca de estratégias de decodificar letra a letra quando necessário (leitura de pseudopalavras). Pode haver habilidade hiperléxica em mais de uma língua.


3. Acesso sem√Ęntico: hiperl√©xicos tem mais precis√£o na leitura de pseudopalavras, mesmo na aus√™ncia de compreens√£o. Os autistas dependem mais de proximidade contextual da informa√ß√£o relevante para auxili√°-los na compreens√£o do texto (que varia de acordo com a natureza do texto, com melhor desempenho nos casos que incluem seus interesses). Senten√ßas irrelevantes em meio ao texto afetam mais sua compreens√£o do que de neurot√≠picos. As √°reas cerebrais que envolvem processamento sem√Ęntico s√£o menos ativadas durante a leitura dos autistas, em contraste com o que acontece nos neurot√≠picos.


Aquisição da leitura em crianças hiperléxicas


Na hiperlexia, as habilidades de leitura s√£o adquiridas na aus√™ncia de instru√ß√£o e n√£o podem ser ensinadas da maneira convencional, o que indica mecanismos essencialmente diferentes do padr√£o. Na maior parte das vezes, o interesse por leitura persiste ao longo do tempo. A emerg√™ncia da fala ocorre ap√≥s o aparecimento da leitura e, algumas vezes, aparentemente mediada por esta. De fato, a hiperlexia parece desempenhar um papel no desenvolvimento da linguagem oral, expressiva e receptiva e na comunica√ß√£o em geral. Mensagens escritas podem facilitar as interven√ß√Ķes terap√™uticas.


A presen√ßa de hiperlexia em cerca de 10 a 20% dos autistas √© um fato que merece maiores investiga√ß√Ķes, podendo representar a variante extrema de um perfil cognitivo mais amplo.


Aparentemente, todo o processo de aquisi√ß√£o da leitura √© diferente na hiperlexia, o que √© consistente com o modelo que prop√Ķe que a percep√ß√£o aut√≠stica tem papel decisivo nas opera√ß√Ķes cognitivas mais complexas. A detec√ß√£o de padr√Ķes, de informa√ß√Ķes que se repetem de determinadas maneiras, tamb√©m parece mediar o aprendizado por associa√ß√Ķes que observamos nos autistas.


Da mesma forma que a ecolalia constitui um est√°gio n√£o comunicativo na dire√ß√£o do acesso √† linguagem, a hiperlexia pode ser mais que leitura sem significado, n√£o comunicativa. Pode ser um passo em dire√ß√£o da compreens√£o da comunica√ß√£o escrita e oral. Este entendimento √© essencial para adapta√ß√Ķes pedag√≥gicas e educacionais. Se a hiperexia √© parte da sequ√™ncia de aprendizagem da linguagem de crian√ßas autistas, tentativas de substitu√≠-la por m√©todos padr√Ķes n√£o ser√£o t√£o bem sucedidas. Devemos estar alertas para interven√ß√Ķes que prop√Ķem elimina√ß√£o de interesses e comportamentos restritos como se fossem impeditivos para a aprendizagem apropriada.


O papel das interven√ß√Ķes deve ser o de assegurar que o desenvolvimento da hiperlexia resulte em benef√≠cios adaptativos, o que n√£o necessariamente coincide com a redu√ß√£o das caracter√≠sticas aut√≠sticas. Pode ser vantajoso seguir a sequ√™ncia pr√≥pria do desenvolvimento autista, oferecendo-se √† crian√ßa est√≠mulos nos quais ela demonstra interesse espont√Ęneo e maior capacidade de processar.


Referência:

"Hyperlexia: Systematic review, neurocognitive modelling and outcome"

Neuroscience and Biobehavioral Reviews 79 (2017) 134-149


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Dra. Valéria Gandolfi Geraldo

Pediatria - Neurologia Pedi√°trica

CRM-SP: 105.691 / RQE: 26.501-1

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