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Transtorno da Fluência com Início na Infância (Gagueira)


Da noite para o dia, sem avisar, a gagueira aparece e se instala na fala das crianças, assustando pais e filhos. Esse Transtorno do Neurodesenvolvimento gera um grande número de dúvidas. Em meu consultório ou nas redes sociais, respondo perguntas sobre o tema semanalmente. “O que causa gagueira?”; “Existe gagueira temporária?”, “Até quando é aceitável gaguejar?”; “Meu filho começou a gaguejar, devo corrigir?”.


Então, vamos lá:

A disfluência – popularmente chamada de gagueira – é uma alteração no ritmo normal da fala. O quadro se caracteriza por repetição de sons, sílabas, palavras, prolongamentos ou até um bloqueio total da linguagem. Tudo isso pode estar associado a movimentos corporais e faciais involuntários (os famosos “tiques”) e ser visto em diferentes graus e tipos (fisiológicos, funcionais e orgânicos) de gagueira. 


É por volta dos 30 a 36 meses de idade que normalmente a gagueira começa a acontecer. De imediato, não é possível saber se é uma questão de alteração temporária ou se será um quadro permanente. Isso porque tanto aquela gagueira que é um distúrbio de linguagem real quanto a chamada “gagueira  do desenvolvimento”(ou orgânica), que tem caráter passageiro e intermitente (oras acontece, oras não), são muito comuns durante essa etapa do processo de desenvolvimento de linguagem. Independente do tipo, uma avaliação com fonoaudiólogo é imprescindível para que a família seja orientada e a criança acolhida! Após essa idade (a partir dos 3 anos e meio), não é mais esperado que a criança sem o Transtorno de comunicação/Transtorno da Fluência com Início na Infância gagueje. Se você perceber que seu filho maiorzinho (5, 6, 8 anos de idade) está gaguejando, leve-o imediatamente para uma avaliação fonoaudiológica. É pouco provável que nessa idade ainda seja uma simples fase passageira. 


Hoje em dia, já se sabe que há fatores genéticos e neurológicos associados ao aparecimento da disfluência. Na fonoaudiologia, existem diversas linhas teóricas sobre o estudo da gagueira, desde considerações sobre o processamento motor da fala e aspectos de  fluência até questões subjetivas e socioculturais. O risco de gagueira entre parentes biológicos de primeiro grau de indivíduos com o transtorno da fluência com início na infância é mais de três vezes maior do que o risco na população em geral.

Critérios Diagnósticos (CID 10: F80.81)

A. Perturbações na fluência normal e no padrão temporal da fala inapropriadas para a idade e para as habilidades linguísticas do indivíduo persistentes e caracterizadas por ocorrências frequentes e marcantes de um (ou mais) entre os seguintes:

  1. Repetições de som e sílabas.

  2. Prolongamentos sonoros das consoantes e das vogais.

  3. Palavras interrompidas (p. ex., pausas em uma palavra).

  4. Bloqueio audível ou silencioso (pausas preenchidas ou não preenchidas na fala).

  5. Circunlocuções (substituições de palavras para evitar palavras problemáticas).

  6. Palavras produzidas com excesso de tensão física.

  7. Repetições de palavras monossilábicas (p. ex., “Eu-eu-eu-eu vejo”).


B. A perturbação causa ansiedade em relação à fala ou limitações na comunicação efetiva, na participação social ou no desempenho acadêmico ou profissional, individualmente ou em qualquer combinação.


C. O início dos sintomas ocorre precocemente no período do desenvolvimento. (Nota: Casos de início tardio são diagnosticados como CID 10: F98.5 - Transtorno da fluência com início na idade adulta.)


D. A perturbação não é passível de ser atribuída a um déficit motor da fala ou sensorial, a disfluência associada a lesão neurológica (p. ex., acidente vascular cerebral, tumor, trauma) ou a outra condição médica, não sendo mais bem explicada por outro transtorno mental.


Características Diagnósticas

A característica essencial do transtorno da fluência com início na infância (gagueira) é uma perturbação na fluência normal e no padrão temporal da fala inapropriada à idade do indivíduo. Essa perturbação caracteriza-se por repetições frequentes ou prolongamentos de sons ou sílabas e por outros tipos de disfluências da fala, incluindo palavras interrompidas (p. ex., pausas no meio de uma palavra), bloqueio audível ou silencioso (i.e., pausas preenchidas ou não preenchi- das na fala), circunlocuções (i.e., substituições de palavras para evitar palavras problemáticas), palavras produzidas com excesso de tensão física e repetições de palavras monossilábicas (p. ex., “Eu-eu-eu-eu vejo”). A perturbação na fluência interfere no sucesso acadêmico ou profissional ou na comunicação social. A gravidade da perturbação varia conforme a situação e costuma ser mais grave quando há pressão especial para se comunicar (p. ex., apresentar um trabalho na escola, entrevista para emprego). A disfluência está frequentemente ausente durante a leitura oral, o ato de cantar ou conversar com objetos inanimados ou animais de estimação.


Características Associadas que Apoiam o Diagnóstico

Pode surgir um temor antecipatório do problema. O falante pode tentar evitar disfluências por meio de mecanismos linguísticos (p. ex., alterando a velocidade da fala, evitando algumas palavras ou sons) ou por esquiva de determinadas situações de discurso, como telefonar ou falar em público. Além de constituírem características da condição, estresse e ansiedade aparecem como elementos que exacerbam a disfluência.


O transtorno da fluência com início na infância pode ser também acompanhado por movimentos motores (p. ex., piscar de olhos, tiques, tremores labiais ou faciais, movimentos descon- trolados da cabeça, movimentos respiratórios, mãos em punho). Crianças com esse transtorno apresentam capacidades linguísticas variáveis, e a relação entre o transtorno da fluência e as capacidades linguísticas ainda não está clara.

Desenvolvimento e Curso

O transtorno da fluência com início na infância, ou gagueira do desenvolvimento, ocorre até os 6 anos de idade para 80 a 90% dos indivíduos afetados, com a idade de início variando dos 2 aos 7 anos. O início pode ser insidioso ou mais repentino. Normalmente, as disfluências têm início gradativo, com repetição das consoantes iniciais, das primeiras palavras de uma frase ou de palavras longas. A criança pode não perceber as disfluências. Com a progressão, elas ficam mais frequentes e causam interferência, ocorrendo nas palavras ou frases mais significativas dos enunciados. À medida que a criança percebe a dificuldade da fala, pode desenvolver mecanismos de esquiva das disfluências e reações emocionais, incluindo esquiva de falar em público e uso de enunciados curtos e simples. Pesquisas longitudinais mostram que 65 a 85% das crianças recuperam-se da disfluência, com a gravidade desse transtorno aos 8 anos sendo um preditor de recuperação ou persistência na adolescência ou após.


Diagnóstico Diferencial:

Déficits sensoriais: Disfluências da fala podem estar associadas a deficiência auditiva ou a outro déficit sensorial ou motor da fala. Quando as disfluências da fala excedem as comumente associadas a esses problemas, pode ser feito um diagnóstico de transtorno da fluência com início na infância.


Disfluências normais da fala: O transtorno deve ser diferenciado das disfluências normais que ocorrem frequentemente em crianças pequenas, incluindo repetições de palavras ou expressões inteiras (p. ex., “Quero, quero sorvete”), frases incompletas, interjeições, pausas silenciosas e co- mentários parentéticos. Se essas dificuldades aumentam em frequência ou complexidade durante o crescimento da criança, é adequado um diagnóstico de transtorno da fluência com início na infância.


Efeitos colaterais de medicamentos: A gagueira pode ocorrer como um efeito colateral de medicamentos, podendo ser detectada por uma relação temporal com a exposição à medicação.


Disfluências com início na idade adulta: Quando o aparecimento das disfluências se dá durante ou após a adolescência, trata- se mais de uma “disfluência com início na idade adulta” do que um transtorno do neurodesenvolvimento. Disfluências com início na idade adulta estão associadas a lesões neurológicas específicas e a uma variedade de condições médicas e transtornos mentais, podendo ser especificadas com eles, ainda que não constituam um diagnóstico do DSM-5.


Transtorno de Tourette: Tiques vocais e vocalizações repetitivas do transtorno de Tourette devem ser passíveis de distinção dos sons repetitivos do transtorno da fluência com início na infância por sua natureza e momento do aparecimento.


O que é importante saber?

“Gagueira tem solução!”. Então, se você não concorda ou não observa melhoras com a linha de tratamento definida pelo profissional, converse com ele e esclareça as suas dúvidas. Se não resolver, busque um profissional com outro direcionamento terapêutico.

Consequências Funcionais do Transtorno da Fluência com Início na Infância (Gagueira): Além de serem características da condição, o estresse e a ansiedade podem exacerbar a disfluência. Prejuízo no funcionamento social pode ser uma consequência dessa ansiedade.


Por fim, quais são as funções dos pais quando se tem uma criança com gagueira?

❌NÃO ria, faça piada ou ridicularize a criança. Lembre-se: essas atitudes trarão consequências emocionais pra ela.


❌NÃO peça calma, sugira que ela pense ou respire antes de falar. A gagueira é involuntária, então sugerir que a criança mantenha o controle não adianta.


❗️Fale sobre o assunto com carinho e ofereça ajuda sempre.


❗️Quando ela estiver te contando um fato, demonstre interesse, olhe nos olhos dela e preste atenção ao conteúdo da fala (e não aos episódios de gagueira)! 


Reforço: na dúvida, procure um fonoaudiólogo!


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Dra. Valéria Gandolfi Geraldo

Pediatria - Neurologia Pediátrica

CRM-SP: 105.691 / RQE: 26.501-1

Rua Dr. Pedro Costa, 483 - 3o. andar, sala 32, Centro, Taubaté - SP

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E-mail: neurogandolfi@hotmail.com  -  Atendimento secretaria: Segunda a sexta das 9h às 16h

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