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TDAH: Uma Jornada de Compreensão, Adaptação e Sucesso



Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH): Uma Jornada de Compreensão, Adaptação e Sucesso


O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é um transtorno neurobiológico complexa que se manifesta predominantemente na infância, caracterizada por comportamentos de desatenção, hiperatividade e impulsividade. Este transtorno, muitas vezes, persiste ao longo da vida, impactando o funcionamento diário, os relacionamentos interpessoais e o desempenho acadêmico e profissional. Embora ainda haja um nível significativo de desconhecimento sobre o TDAH em certos setores da sociedade, é crucial compreender que este é o transtorno neuropsiquiátrico mais comum em crianças e adolescentes.


A desatenção, um dos principais componentes do TDAH, manifesta-se por dificuldades em manter o foco em tarefas, frequentemente resultando em erros por descuido. A hiperatividade se refere a uma inquietude motora excessiva, enquanto a impulsividade se manifesta por ações precipitadas sem considerar as consequências. Embora os sintomas variem entre os indivíduos, a combinação desses elementos pode criar desafios significativos em várias áreas da vida.


Um aspecto importante a ser destacado é que o TDAH é mais prevalente em meninos, que geralmente apresentam comportamentos mais pronunciados de hiperatividade e impulsividade. No entanto, tanto meninos quanto meninas com TDAH compartilham a característica comum de desatenção, o que pode impactar negativamente o desempenho acadêmico e o comportamento social.


A pesquisa sobre a prevalência do TDAH em diferentes regiões do mundo indica que o transtorno é generalizado e não está fortemente ligado a fatores culturais ou educacionais específicos. A consistência desses padrões ao redor do globo sugere fortemente que o TDAH tem uma base neurobiológica substancial, desassociando-se de meros fatores ambientais ou comportamentais.


A predisposição genética é considerada um fator significativo no desenvolvimento do TDAH. Estudos de famílias e gêmeos mostram que a probabilidade de uma criança desenvolver TDAH é maior quando há histórico familiar da condição. A identificação de marcadores genéticos específicos relacionados ao TDAH é uma área ativa de pesquisa, proporcionando insights valiosos sobre as origens genéticas do transtorno.


Além da predisposição genética, as alterações nos neurotransmissores são destacadas como fundamentais na compreensão das causas do TDAH. Os neurotransmissores, como a dopamina e a noradrenalina, desempenham papéis essenciais na regulação da atenção, do humor e do controle impulsivo. Disfunções nessas vias neurotransmissoras, particularmente na região frontal do cérebro, são associadas aos sintomas do TDAH.


Embora o TDAH seja um transtorno neurobiológico, seu impacto é sentido de maneira significativa no ambiente educacional. O modelo tradicional de aulas longas e monótonas muitas vezes não atende às necessidades de alunos com TDAH, que podem ter dificuldades em manter a atenção por períodos prolongados. A sugestão de romper com esse formato tradicional e adotar a abordagem de aulas curtas, com pausas regulares, é uma estratégia valiosa. Mais vale assistir a várias aulas curtas de 10 minutos do que enfrentar a dificuldade de manter a atenção por 50 minutos consecutivos.


Entretanto, reconhecendo as limitações práticas dessa mudança estrutural, sugere-se que os professores incorporem elementos disruptores em suas aulas tradicionais. Esses elementos podem assumir diversas formas, desde anedotas sobre pesquisadores até perguntas instigantes e vídeos que introduzem tópicos diferentes. A interrupção periódica da aula busca manter o interesse e a participação dos alunos, proporcionando um ambiente mais favorável para todos, independentemente da presença do TDAH.


Ao abordar o TDAH, é fundamental considerar as diferenças individuais e reconhecer que a atenção não é um recurso infinito. Neste contexto, a adaptabilidade e a flexibilidade no ambiente educacional são fundamentais para atender às necessidades variadas dos alunos. Estratégias personalizadas, suporte contínuo e a colaboração entre educadores, profissionais de saúde e familiares são componentes cruciais na promoção do sucesso acadêmico e social de indivíduos com TDAH.


No âmbito clínico, a abordagem terapêutica para o TDAH é multifacetada e inclui intervenções farmacológicas e não farmacológicas. Os medicamentos estimulantes, como metilfenidato e anfetaminas, são frequentemente prescritos para ajudar a regular a atenção e a impulsividade. Além disso, as terapias comportamentais, como a terapia cognitivo-comportamental e a terapia de organização e planejamento, são valiosas para desenvolver habilidades de enfrentamento e estratégias adaptativas.


O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade é um transtorno do neurodesenvolvimento que apresenta desafios significativos em diversas áreas da vida. A combinação de predisposição genética e alterações nos neurotransmissores contribui para a complexidade do transtorno. A adaptação do ambiente educacional e a consideração das necessidades individuais dos alunos são cruciais para promover o sucesso acadêmico e social. A colaboração entre educadores, profissionais de saúde e familiares é essencial para oferecer um suporte abrangente e personalizado aos indivíduos com TDAH, capacitando-os a atingir todo o seu potencial.


SNAP-IV

O questionário SNAP-IV é apenas um ponto de partida para levantamento de alguns possíveis comportamentos primários do TDAH. Ele não é instrumento de diagnóstico. É de rastreamento de chance de TDAH em crianças e adolescentes de 4 anos a 17 anos e 11 meses.


O diagnóstico correto e preciso do TDAH só pode ser feito através de uma longa anamnese (entrevista) com um profissional médico especializado (psiquiatra da infância e adolescência, pediatria do desenvolvimento e comportamento ou neurologista pediátrico com expertise em TDAH).


Muitos dos comportamentos nele relacionados podem estar associados a outras coocorrências ao TDAH e outras condições clínicas e psicológicas.


Lembre-se sempre que qualquer diagnóstico só pode ser fornecido por um profissional médico.


Como avaliar:

  1. Se existem pelo menos 6 itens marcados como “BASTANTE” ou “DEMAIS” de 1 a 9 = existem mais sintomas de desatenção que o esperado numa criança ou adolescente.

  2. Se existem pelo menos 6 itens marcados como “BASTANTE” ou “DEMAIS” de 10 a 18 = existem mais sintomas de hiperatividade e impulsividade que o esperado numa criança ou adolescente.

O questionário SNAP-IV é útil para avaliar apenas o primeiro dos critérios (critério A) para se fazer o diagnóstico. Existem outros critérios que também são necessários.


IMPORTANTE: Não se pode fazer o diagnóstico de TDAH apenas com o critério A! Veja a seguir os demais critérios.

  • CRITÉRIO A: Comportamentos descritos na na foto acima.

  • CRITÉRIO B: Vários comportamentos de desatenção ou hiperatividade-impulsividade estavam presentes antes dos 12 anos de idade.

  • CRITÉRIO C: Vários comportamentos de desatenção ou hiperatividade-impulsividade estão presentes em dois ou mais ambientes (p. ex., em casa, na escola, no trabalho; com amigos ou parentes; em outras atividades).

  • CRITÉRIO D: Há evidências claras de que os comportamentos interferem no funcionamento social, acadêmico ou profissional ou de que reduzem sua qualidade.

  • CRITÉRIO E: Os comportamentos não ocorrem exclusivamente durante o curso de esquizofrenia ou outro transtorno psicótico e não são mais bem explicados por outro transtorno mental e comportamental (por exemplo, transtorno do humor, transtorno de ansiedade, transtorno dissociativo, transtorno da personalidade, intoxicação ou abstinência de substância).

Subtipos do TDAH

  • CID 10: F90.2, considerando a nova CID 11: 6A05.2 - Apresentação combinada: Se tanto o Critério A1 (desatenção) quanto o Critério A2 (hiperatividade-impulsividade) são preenchidos nos últimos 6 meses.

  • CID 10: F90.0, considerando a nova CID 11: 6A05.0) - Apresentação predominantemente desatenta: Se o Critério A1 (desatenção) é preenchido, mas o Critério A2 (hiperatividade-impulsividade) não é preenchido nos últimos 6 meses.

  • CID 10: F90.1, considerando a nova CID 11: 6A05.1 - Apresentação predominantemente hiperativa-impulsiva: Se o Critério A2 (hiperatividade-impulsividade) é preenchido, e o Critério A1 (desatenção) não é preenchido nos últimos 6 meses.


Tem que se especificar, no TDAH, se a pessoa está:

  • Em remissão parcial: Quando todos os critérios foram preenchidos no passado, nem todos os critérios foram preenchidos nos últimos 6 meses, e os comportamentos ainda resultam em prejuízo no funcionamento social, acadêmico ou profissional.


Níveis de Gravidade atual do TDAH:

  1. Leve: Poucos comportamentos, se algum, estão presentes além daqueles necessários para fazer o diagnóstico, e os comportamentos resultam em não mais do que pequenos prejuízos no funcionamento social ou profissional.

  2. Moderada: Comportamentos ou prejuízo funcional entre “leve” e “grave” estão presentes.

  3. Grave: Muitos comportamentos além daqueles necessários para fazer o diagnóstico estão presentes, ou vários comportamentos particularmente graves estão presentes, ou os comportamentos podem resultar em prejuízo acentuado no funcionamento social ou profissional.

Tratamento

O novo Guideline da Academia Americana de Pediatria (AAP) oferece diretrizes praticas para manejo do TDAH em crianças e adolescentes de 4 anos a 17 anos e 11 meses.


Recomenda-se o manejo com um modelo de atendimento de paciente crônico multidisciplinar e focado no paciente, incluindo a coordenação do atendimento com o pessoal da escola e terapeutas.


Coocorrências precisam ser formalmente avaliadas, como ansiedade, depressão, uso de substâncias, transtornos da linguagem e aprendizado, e gerenciadas diretamente ou com encaminhamentos a fonoaudiólogo educacional, psicopedagogo e terapia ocupacional no contexto escolar e terapeuta ocupacional com Certificação internacional em Integração Sensorial de Ayres.


Para crianças menores de 4 anos de idade com comportamentos com chance de TDAH, deve-se encaminhar para o treinamento de manejo comportamental para pais, que é uma psicoterapia para crianças e adolescentes realizada com seus pais. Nas crianças e adolescentes de 4 anos a 17 anos e 11 meses, tratamento deve incluir: treinamento de manejo comportamental para pais e apoios escolares para crianças de 4 a 6 anos; treinamento de manejo comportamental para pais, apoio escolar e medicamentos para crianças de 6 a 12 anos; e apoios escolares, medicamentos e apoios de transição para maiores de 12 anos. Os adolescentes devem ser rastreados quanto ao abuso de substâncias. Portanto, não se medica crianças de 4 a 6 anos e muito menos as menores de 4 anos, onde o diagnóstico formal de TDAH ainda não pode ser feito.


Considerações Finais

O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é um transtorno neuropsiquiátrica que se manifesta predominantemente na infância, persistindo, muitas vezes, ao longo da vida. Este transtorno complexo é caracterizado por três principais componentes comportamentais: desatenção, hiperatividade e impulsividade. Entender a definição e os critérios diagnósticos é crucial para identificar e abordar efetivamente esse desafio neurocomportamental.


Desatenção: A desatenção, um dos pilares do TDAH, manifesta-se através de dificuldades persistentes em manter o foco em tarefas específicas. Indivíduos com TDAH podem apresentar falta de atenção a detalhes, cometer erros por descuido e ter dificuldade em organizar tarefas e atividades.


Hiperatividade: A hiperatividade envolve um nível excessivo e inadequado de atividade motora. Em crianças, isso pode se manifestar como inquietude constante, dificuldade em permanecer sentado ou envolvimento excessivo em atividades físicas. Em adultos, a hiperatividade pode se traduzir por inquietação e impulsividade em diversas áreas da vida.


Impulsividade: A impulsividade refere-se à tendência de agir sem considerar as consequências. Indivíduos com TDAH podem ter dificuldade em esperar a sua vez, interromper os outros ou tomar decisões precipitadas. Essa impulsividade pode resultar em comportamentos impulsivos socialmente inadequados.


Os critérios diagnósticos para o TDAH são estabelecidos por manuais de classificação internacional, como o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, Quinta Edição, Texto Revisado (DSM-5 TR). Para receber um diagnóstico de TDAH, os comportamentos devem ser persistentes e prejudiciais em múltiplos ambientes, como casa, escola ou trabalho. Além disso, é essencial descartar outras condições médicas ou psiquiátricas que possam estar contribuindo para os comportamentos observados.


A avaliação do TDAH envolve uma abordagem abrangente, que inclui entrevistas clínicas, observações comportamentais, histórico médico e, em alguns casos, a colaboração entre escola e profissionais de saúde. A identificação precoce é crucial para iniciar intervenções adequadas e promover o sucesso acadêmico e social do indivíduo.


Entender o TDAH vai além da simples categorização de comportamentos. Envolve reconhecer a interação complexa entre fatores genéticos, neuroquímicos e ambientais. A predisposição genética é um elemento importante, mas a influência do ambiente, como estresse familiar ou exposição a substâncias tóxicas durante a gravidez, também desempenha um papel na expressão do TDAH.


Além disso, as alterações nos neurotransmissores, em particular na dopamina e noradrenalina, são apontadas como cruciais para a compreensão das bases neurobiológicas do TDAH. Esses neurotransmissores desempenham papéis fundamentais na regulação da atenção, do humor e do controle impulsivo, e disfunções nessas vias estão associadas aos sintomas observados no TDAH.


O diagnóstico de TDAH não implica apenas a identificação de comportamentos, mas também a avaliação do impacto desses comportamentos interferentes na vida cotidiana do indivíduo. Uma abordagem integral e multidisciplinar é necessária para fornecer suporte eficaz, incluindo intervenções farmacológicas, terapias comportamentais, apoio educacional e estratégias de adaptação.


Em resumo, compreender o TDAH envolve a apreciação da complexidade dos seus comportamentos e fatores causais. Além dos critérios diagnósticos, é crucial reconhecer o impacto do TDAH na vida diária e implementar abordagens terapêuticas personalizadas. O entendimento abrangente do TDAH permite uma resposta mais eficaz e compassiva, capacitando as crianças com TDAH a enfrentarem os desafios associados e alcançar o pleno desenvolvimento do seu potencial.



Dra. Valéria Gandolfi Geraldo

Pediatria - Neurologia Pediátrica

CRM-SP: 105.691 / RQE: 26.501-1


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