Cefaleia em Salvas na Infância e Adolescência: Epidemiologia, Fisiopatologia, Diagnóstico e Manejo Terapêutico
- Clinica NeuroGandolfi

- 11 de jun.
- 11 min de leitura

Uma revisão crítica da literatura com implicações clínicas para a prática pediátrica
Autora: Valéria Gandolfi Geraldo - Clinica NeuroGandolfi - Taubaté/SP
RESUMO Contexto: A cefaleia em salvas (CS) é a mais incapacitante das cefaleias trigêmino-autonômicas e, embora classicamente descrita em adultos do sexo masculino, pode manifestar-se na infância e adolescência com apresentação atípica que retarda o diagnóstico. Objetivos: Revisar sistematicamente a literatura sobre CS em pacientes com menos de 18 anos, abrangendo epidemiologia, fisiopatologia, diagnóstico e tratamento. Métodos: Busca em PubMed/MEDLINE, Embase, SciELO e LILACS (2000–2025). Quarenta e sete estudos incluídos. Resultados: Prevalência pediátrica estimada em 0,02–0,06%. Crianças apresentam maior proporção do sexo feminino, crises mais curtas, sintomas autonômicos menos pronunciados e maior sobreposição com migrânea. Oxigenoterapia e sumatriptano intranasal são eficazes como abortivos; verapamil é o profilático de escolha (eficácia ≥75%). Conclusões: A CS pediátrica é subdiagnosticada e subtratada. Critérios diagnósticos adaptados e ensaios clínicos pediátricos específicos são necessários. Palavras-chave: cefaleia em salvas; crianças; adolescentes; neurologia pediátrica; cefaleias trigêmino-autonômicas. | ABSTRACT Background: Cluster headache (CH) is the most disabling trigeminal autonomic cephalalgia and, although classically described in adult males, may manifest in childhood with atypical presentation delaying diagnosis. Objectives: To systematically review CH literature in patients under 18 years, covering epidemiology, pathophysiology, diagnostic criteria, and therapeutic strategies. Methods: Databases PubMed/MEDLINE, Embase, SciELO and LILACS were searched (2000–2025); 47 studies included. Results: Estimated pediatric prevalence is 0.02–0.06%. Children show higher female proportion, shorter attacks, less pronounced autonomic symptoms, and greater overlap with migraine. High-flow oxygen and intranasal sumatriptan are effective; verapamil is the prophylactic of choice (≥75% efficacy). Conclusions: Pediatric CH is underdiagnosed and undertreated. Adapted diagnostic criteria and pediatric clinical trials are needed. Keywords: cluster headache; children; adolescents; pediatric neurology; trigeminal autonomic cephalalgias. |
1. INTRODUÇÃO
A cefaleia em salvas (CS) constitui a forma mais intensa e incapacitante das cefaleias trigêmino-autonômicas (TACs), caracterizando-se por episódios de dor unilateral de extrema severidade, orbital ou periorbital, com duração de 15 a 180 minutos e acompanhada de sinais autonômicos ipsilaterais proeminentes.
Embora historicamente associada a homens adultos na quarta ou quinta décadas de vida, um número crescente de relatos de caso e séries pediátricas demonstra que a CS pode ocorrer em crianças e adolescentes, frequentemente passando desapercebida ou sendo confundida com outros tipos de cefaleia.[3,4]
A prevalência geral da CS na população é estimada em aproximadamente 0,1%, com razão masculino:feminino de 3–4:1 em adultos. Na população pediátrica, estudos sugerem uma inversão relativa dessa proporção, com proporções mais equilibradas entre os sexos, e até predomínio feminino em algumas séries.[5,6]
O atraso diagnóstico médio em adultos com CS já é substancial, estimado em 5 a 7 anos, e tende a ser ainda mais prolongado em pacientes pediátricos.[8] Esse retardo implica sofrimento desnecessário, absenteísmo escolar e comprometimento do desenvolvimento neuropsicossocial. A falta de estudos clínicos dedicados à faixa etária pediátrica obriga os clínicos a extrapolar dados de populações adultas, o que pode ser inadequado tanto do ponto de vista farmacocinético quanto fisiopatológico.[4,9]
A presente revisão sistemática tem por objetivo sintetizar o conhecimento atual sobre a CS na infância e adolescência, abordando aspectos epidemiológicos, mecanismos fisiopatológicos, apresentação clínica, critérios diagnósticos do ICHD-3 e suas limitações nessa faixa etária, diagnóstico diferencial e estratégias de manejo agudo e profilático.
2. MÉTODOS
Realizou-se busca sistemática nas bases de dados PubMed/MEDLINE, Embase, Cochrane Library, SciELO e LILACS, utilizando os descritores: cluster headache, pediatric cluster headache, children AND cluster headache, adolescents AND cluster headache, trigeminal autonomic cephalalgias pediatric, e seus equivalentes em português e espanhol. O período de busca abrangeu janeiro de 2000 a março de 2025.
Os critérios de inclusão compreenderam: (1) estudos com participantes com idade inferior a 18 anos; (2) diagnóstico de CS segundo critérios ICHD-2 ou ICHD-3; (3) estudos originais, revisões sistemáticas, metanálises, relatos e séries de casos. Critérios de exclusão: estudos exclusivamente em adultos e relatos sem critérios diagnósticos explícitos. Após triagem de 312 referências, 47 estudos preencheram os critérios de inclusão.
3. EPIDEMIOLOGIA
A prevalência da CS pediátrica é difícil de estimar com precisão devido à raridade da condição e à tendência de subnotificação. Estudos populacionais e de centros de referência apontam para uma prevalência de 0,02% a 0,06% em menores de 18 anos, correspondendo a aproximadamente 20–50% da prevalência estimada em adultos.[5,10]
Uma análise do questionário internacional de CS (International Cluster Headache Questionnaire) identificou que 4,6% dos respondentes relataram início dos sintomas antes dos 18 anos, com pico entre 10 e 14 anos.[5] A série retrospectiva de Eberhard & Jackman (2024), conduzida em hospital pediátrico americano (2015–2023), identificou 25 casos com diagnóstico de CS antes dos 18 anos, sendo 16 do sexo feminino (64%) e 9 do masculino, com idades entre 6 e 17 anos.[6]
No Brasil, o Registro de Cefaleia em Salvas da UNIFESP documentou casos com início na adolescência em aproximadamente 6,8% dos pacientes acompanhados, com predomínio masculino nessa coorte local, sugerindo que variáveis populacionais e metodológicas influenciam os achados epidemiológicos.[11]
4. FISIOPATOLOGIA
A fisiopatologia da CS é complexa e ainda não completamente elucidada, envolvendo a interação de três sistemas principais: o sistema trigeminovascular, as vias parassimpáticas cranianas e o hipotálamo.[12,13]
4.1 Papel do hipotálamo
O hipotálamo posterior exerce papel central como possível gerador das crises de CS. Estudos de neuroimagem funcional com PET-scan demonstraram ativação hipotalâmica ipsilateral durante os ataques, mesmo na ausência de dor ativa.[14] Essa estrutura governa ritmos circadianos e circanuais, o que explicaria a notável periodicidade das crises e o agrupamento sazonal característico da doença. Em crianças, a imaturidade dos sistemas de regulação hipotalâmica pode contribuir para uma fenomenologia distinta da apresentação adulta.[3,15]
4.2 Via trigêmino-autonômica
A ativação do gânglio trigeminal, particularmente das fibras da primeira divisão (V1), desencadeia a liberação de neuropeptídeos vasoativos como o CGRP (peptídeo relacionado ao gene da calcitonina), substância P e peptídeo intestinal vasoativo (VIP). Esses mediadores induzem vasodilatação intracraniana e inflamação neurogênica periorbital, gerando a dor intensa característica da CS.[13,16]
O reflexo trigêmino-autonômico, mediado pelo núcleo salivatório superior, é responsável pelos sintomas autonômicos ipsilaterais, incluindo lacrimejamento, rinorreia, ptose, miose e congestão nasal. A menor intensidade desses sinais em crianças pode refletir diferenças maturativas nessa via reflexa.[3]
4.3 Fatores genéticos e ambientais
Há evidências de componente familiar na CS, com risco 14–39 vezes maior em parentes de primeiro grau. Variantes nos genes HCRTR2 (receptor de hipocretina/orexina tipo 2) e ADH4 foram associadas à suscetibilidade à CS em estudos de associação genômica ampla.[17] Exposição passiva à fumaça de cigarro e perturbações do ritmo circadiano, como privação de sono, podem desempenhar papel precipitante em crianças.[6,9]
5. CARACTERÍSTICAS CLÍNICAS
As manifestações clínicas da CS pediátrica compartilham traços essenciais com a apresentação adulta, mas apresentam particularidades que merecem atenção.[3,4] A Tabela 1 apresenta as principais diferenças.
Tabela 1. Comparação das características clínicas da CS em crianças versus adultos.
Característica | Adultos | Crianças/Adolescentes |
Sexo predominante | Masculino (3–4:1) | Equilibrado ou feminino |
Idade de início | 25–50 anos | 10–17 anos (média) |
Duração das crises | 15–180 min | Frequentemente <30 min |
Frequência diária | 1–8 crises/dia | 1–3 crises/dia |
Sintomas autonômicos | Proeminentes | Menos pronunciados |
Inquietação motora | Frequente (93%) | Presente (60–70%) |
Sobreposição com migrânea | 13–30% | 40–76% |
Periodicidade circadiana | Marcante | Menos definida |
CS sintomática | ~2% | ~20% (exclusão obrigatória) |
Fontes: Borrelli et al., 2024; Eberhard & Jackman, 2024; Ghosh et al., 2023; Mesquita et al., 2021.
Um achado de particular relevância clínica é a elevada proporção de CS sintomáticas em crianças, estimada em até 20% dos casos, em contraste com apenas 1–2% em adultos.[6] A série de Eberhard & Jackman (2024) identificou etiologias como doença de Graves, neurite óptica, prolactinoma, astrocitoma pilocítico hipotalâmico com estenose carotídea e cegueira ocular congênita como causas secundárias de CS pediátrica. Esse dado reforça a necessidade de investigação complementar com neuroimagem em todos os casos pediátricos.
6. CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS ICHD-3
A Classificação Internacional das Cefaleias, 3.ª edição (ICHD-3), define a CS pelos critérios operacionais apresentados na caixa abaixo.[1]
Critérios ICHD-3 para Cefaleia em Salvas (3.1) A. Pelo menos 5 crises preenchendo B–D B. Dor orbital, supraorbital e ou temporal unilateral grave a muito grave, com duração de 15–180 minutos sem tratamento C. ≥ 1 dos seguintes, ipsilateralmente: injeção conjuntival/lacrimejamento, congestão nasal/rinorreia, edema palpebral, sudorese frontal/facial, miose/ptose; e ou agitação ou inquietação D. Frequência: de 1 vez em dia alternado a 8 crises por dia durante a fase de agrupamento E. Não melhor explicada por outro diagnóstico ICHD-3 |
Especialistas identificam limitações relevantes dos critérios ICHD-3 em pacientes pediátricos: (1) a duração mínima de 15 minutos pode não capturar crises mais curtas, comuns em crianças; (2) o número mínimo de 5 crises dificulta o diagnóstico precoce; (3) os sintomas autonômicos, com menor expressividade nessa faixa etária, podem não ser relatados espontaneamente.[2,3,18] Um estudo com especialistas em cefaleia infantil recomendou adaptações específicas dos critérios para a população pediátrica, ainda não incorporadas formalmente ao ICHD.[18]
7. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
O diagnóstico diferencial da CS na infância inclui principalmente outras cefaleias trigêmino-autonômicas e formas secundárias de cefaleia. A Tabela 2 apresenta os principais diagnósticos a considerar.
Tabela 2. Diagnóstico diferencial das cefaleias trigêmino-autonômicas na infância.
Condição | Duração | Freq./dia | Característica-chave |
Cefaleia em salvas | 15–180 min | 1–8 | Agitação; sazonalidade |
Hemicrania paroxística | 2–30 min | ≥5 | Resposta à indometacina |
SUNCT/SUNA | 1–600 seg | 3–200 | Injeção conjuntival intensa |
Hemicrania contínua | Contínua | Contínua | Dor basal + indometacina |
Migrânea com aura | 4–72h | Variável | Aura; náusea; fotofobia |
Nevralgia do trigêmeo | <2 min | Variável | Dor elétrica; zona gatilho |
CS sintomática | Variável | Variável | Lesão estrutural subjacente |
SUNCT = Short-lasting Unilateral Neuralgiform headache with Conjunctival injection and Tearing; SUNA = Short-lasting Unilateral Neuralgiform headache with cranial Autonomic symptoms.
8. TRATAMENTO
8.1 Tratamento abortivo das crises
Oxigenoterapia de alto fluxo: A inalação de O2 a 100% por máscara facial com reservatório, a fluxo mínimo de 7–12 L/min por 15–20 minutos, é o tratamento abortivo mais eficaz e seguro para CS em adultos, com resposta em 70–80% dos casos.[8,16] Na população pediátrica, a oxigenoterapia é particularmente valorizada pela ausência de contraindicações relacionadas à idade, podendo também auxiliar no diagnóstico diferencial.[10,19]
Sumatriptano intranasal: O sumatriptano subcutâneo (6 mg) é a opção mais eficaz na população adulta, com alívio em 20 minutos em ~75% dos casos. Em crianças, o uso subcutâneo é contraindicado em menores de 12 anos; a formulação intranasal (20 mg) representa alternativa válida para adolescentes, com eficácia documentada em relatos de caso e pequenas séries.[10,4] O zolmitriptano intranasal (5 mg) constitui alternativa com perfil de segurança semelhante.
8.2 Tratamento profilático
Tabela 3. Síntese das opções terapêuticas para CS na população pediátrica.
Medicamento | Dose pediátrica | Nível de evidência | Precauções |
TRATAMENTO ABORTIVO | |||
O₂ 100% (inalação) | 7–12 L/min × 15–20 min | Forte (adultos); Moderada (pediatria.) | Seguro; disponibilidade hospitalar |
Sumatriptano IN (intranasal) | 10–20 mg (>12 anos) | Moderada | Contraindicado <12 anos |
Zolmitriptano IN | 5 mg (>12 anos) | Moderada | Não usar com ergotaminas |
Lidocaína intranasal | 1 mL a 10% IN | Fraca | Efeito breve; 2ª linha |
TRATAMENTO PROFILÁTICO | |||
Verapamil | 40–80 mg 3×/dia (titular) | Forte (adultos); Moderada (pediatria.) | ECG (eletrocardiograma) obrigatório; bradicardia |
Prednisona (transição) | 1 mg/kg/dia → redução | Moderada | Uso ≤2–3 semanas |
Ácido valpróico | 15–30 mg/kg/dia | Fraca–Moderada | Hepatotoxicidade; teratogênese |
Melatonina | 0,5–10 mg/noite | Fraca | Boa tolerabilidade; adjuvante |
Carbonato de lítio | 300 mg 2–3×/dia (titular) | Fraca | Monitorar função renal/tireóide |
IN = intranasal; ECG = eletrocardiograma. Níveis de evidência adaptados da classificação GRADE. Fontes: Borrelli et al., 2024; Mesquita et al., 2021; San-Juan et al., 2024.
Verapamil: Bloqueador de canal de cálcio não-diidropiridínico, é o profilático de primeira linha em adultos e o mais utilizado em crianças, com eficácia estimada superior a 75% nas séries pediátricas.[10,11] A dose inicial recomendada é 40–80 mg três vezes ao dia, com titulação progressiva conforme tolerância e resposta. Monitoração eletrocardiográfica obrigatória antes e durante o tratamento é recomendada, dado o risco de bloqueio atrioventricular.
Corticosteroides (transição): A prednisona ou prednisolona (1 mg/kg/dia, máximo 60 mg/dia, por 5–7 dias com redução progressiva) é utilizada como terapia de transição para controle rápido das crises até que o profilático atinja efeito pleno.[8,19]
Outros profiláticos: O ácido valpróico, a gabapentina e o carbonato de lítio demonstraram eficácia ≥75% em pequenas séries pediátricas.[10] A melatonina (0,5–10 mg à noite) emerge como opção adjuvante com boa tolerabilidade em crianças, justificada pela disfunção hipotalâmica e pela irregularidade circadiana inerente à CS.[17]
9. INVESTIGAÇÃO COMPLEMENTAR E NEUROIMAGEM
Dada a elevada proporção de CS sintomática em crianças, a realização de ressonância magnética do encéfalo (com e sem gadolínio, incluindo sequências de angiografia) é considerada mandatória em todos os casos pediátricos de nova apresentação.[4,6,7] A investigação deve incluir avaliação hipotalâmica, sellar, suprasellar e das estruturas vasculares cranianas. Em casos com apresentação atípica, polissonografia pode ser indicada para documentar episódios noturnos e descartar apneia obstrutiva do sono como fator precipitante.[3]
10. IMPACTO PSICOSSOCIAL E QUALIDADE DE VIDA
A CS impõe carga psicossocial significativa em qualquer faixa etária, mas em crianças e adolescentes o impacto é potencialmente ampliado pela interferência no desenvolvimento escolar, social e emocional. Absenteísmo escolar, isolamento social, ansiedade antecipatória e risco de depressão são desfechos documentados nessa população.[4,9]
O manejo multidisciplinar, integrando neurologista pediátrico, psicólogo, assistente social e equipe escolar, é recomendado para pacientes com CS crônica ou com impacto funcional significativo. Técnicas de regulação autonômica, higiene do sono e psicoeducação familiar complementam o tratamento farmacológico.
11. DISCUSSÃO
Os resultados desta revisão confirmam que a CS pediátrica é uma entidade genuinamente distinta da CS do adulto, não apenas em seus aspectos epidemiológicos, mas também em sua fenomenologia clínica, perfil de risco para causas secundárias e resposta a tratamentos. A persistência em aplicar, sem adaptações, os critérios ICHD-3 desenvolvidos primordialmente a partir de populações adultas tem contribuído para atrasos diagnósticos substanciais em crianças.
O achado mais impactante desta revisão é a elevada prevalência de CS sintomáticas em crianças (até 20%), contrastando com apenas 1–2% em adultos.[6] Isso impõe obrigação diagnóstica de exclusão sistemática de lesões estruturais em todo paciente pediátrico com quadro compatível com CS.
Do ponto de vista terapêutico, a extrapolação de dados adultos para a prática pediátrica é inevitável, porém imperfeita. A oxigenoterapia de alto fluxo permanece como o tratamento abortivo mais seguro e eficaz, sem contraindicações relacionadas à idade. O verapamil, como profilático de primeira linha, demonstrou eficácia ≥75% nas séries pediátricas disponíveis.[10] Contudo, a ausência de ensaios clínicos randomizados dedicados à CS pediátrica representa lacuna crítica do conhecimento.
As perspectivas futuras incluem a validação de critérios diagnósticos adaptados para a faixa etária pediátrica e o desenvolvimento de biomarcadores (como CGRP sérico) para uso diagnóstico. Os anticorpos monoclonais anti-CGRP (fremanezumab, galcanezumab, eptinezumab) e anti-receptor CGRP (erenumab), aprovados para migrânea em adultos, representam potencial promissor para CS refratária, mas dados pediátricos são ainda inexistentes.[2,19]
12. CONCLUSÕES
A cefaleia em salvas na infância e adolescência é uma condição rara, gravemente incapacitante e sistematicamente subdiagnosticada. Sua apresentação atípica em relação à forma adulta, com menor proeminência de sinais autonômicos, maior sobreposição com migrânea, crises de menor duração e elevada proporção de causas secundárias, exige abordagem diagnóstica cuidadosa e investigação complementar obrigatória com neuroimagem.
O tratamento, ainda amplamente baseado em evidências extrapoladas de adultos, deve priorizar a oxigenoterapia de alto fluxo para aborto de crises e o verapamil como profilático de primeira linha, com monitoração eletrocardiográfica rigorosa. Avanços na área dependem da condução de estudos clínicos pediátricos específicos e da revisão dos critérios diagnósticos internacionais para contemplar as particularidades dessa faixa etária.
Conflitos de interesse: A autora declara não haver conflitos de interesse.
Financiamento: Pesquisa financiada com recursos próprios da autora. Sem financiamento externo.
Aprovação ética: Não aplicável (revisão narrativa sem coleta primária de dados). CAAE: N/A.
REFERÊNCIAS
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