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Crises de Perda de Fôlego Cianótica e Pálida na Infância: Fisiopatologia, Diagnóstico e o Papel Terapêutico da Suplementação de Ferro

Cyanotic and Pallid Breath-Holding Spells in Childhood: Pathophysiology, Diagnosis and the Therapeutic Role of Iron Supplementation
Cyanotic and Pallid Breath-Holding Spells in Childhood: Pathophysiology, Diagnosis and the Therapeutic Role of Iron Supplementation

Autora: Valéria Gandolfi Geraldo - Clinica NeuroGandolfi - Taubaté/SP

 

RESUMO

Objetivo: Revisar sistematicamente a fisiopatologia, apresentação clínica, diagnóstico diferencial e manejo das crises de perda de fôlego (CPF) cianótica e pálida na infância, com ênfase no papel da deficiência de ferro e da suplementação no controle das crises.

Fontes dos dados: Revisão narrativa com metanálise de dados publicados nas bases PubMed/MEDLINE, SciELO e LILACS (2000–2025). Foram incluídos estudos prospectivos, ensaios clínicos randomizados, revisões sistemáticas e relatos de casos de relevância clínica.

Síntese dos dados: As CPF afetam 0,1–4,6% das crianças, predominantemente entre 6 meses e 5 anos. A forma cianótica responde por 65–75% dos casos, seguida pela pálida (20–25%). A deficiência de ferro foi identificada como fator de risco independente (OR=3,1–5,8 para a forma cianótica). Ensaios clínicos randomizados demonstraram redução de 88,8% na frequência de crises com sulfato ferroso oral (3–6mg/kg/dia) quando a ferritina sérica foi mantida acima de 30ng/mL. O diagnóstico é eminentemente clínico; exames complementares são reservados para afastar epilepsia, arritmias e outras condições.

Conclusões: A CPF é condição benigna de resolução espontânea, porém de alto impacto familiar. A manutenção de ferritina sérica ≥ 30ng/mL por meio de suplementação de ferro elementar é a principal intervenção terapêutica modificável com evidência de nível I. O aconselhamento familiar detalhado e o seguimento clínico regular são fundamentais.

Palavras-chave: Perda de fôlego; Apneia reflexa; Deficiência de ferro; Ferritina; Pediatria; Síncope.


ABSTRACT

Objective: To systematically review the pathophysiology, clinical presentation, differential diagnosis, and management of cyanotic and pallid breath-holding spells (BHS) in childhood, with emphasis on the role of iron deficiency and supplementation in spell control.

Data sources: Narrative review with data meta-analysis drawn from PubMed/MEDLINE, SciELO, and LILACS (2000–2025). Prospective studies, randomised controlled trials, systematic reviews, and clinically relevant case reports were included.

Data synthesis: BHS affects 0.1–4.6% of children, predominantly between 6 months and 5 years of age. The cyanotic subtype accounts for 65–75% of cases, followed by the pallid subtype (20–25%). Iron deficiency was identified as an independent risk factor (OR=3.1–5.8 for the cyanotic subtype). Randomised clinical trials demonstrated an 88.8% reduction in spell frequency with oral ferrous sulfate (3–6 mg/kg/day) when serum ferritin was maintained above 30ng/mL.

Conclusions: BHS is a benign self-resolving condition, yet it carries significant family burden. Maintaining serum ferritin ≥ 30ng/mL via elemental iron supplementation is the primary modifiable therapeutic intervention with level I evidence.

Keywords: Breath-holding spells; Reflex anoxic seizures; Iron deficiency; Ferritin; Pediatrics; Syncope.


 

1. Introdução

As crises de perda de fôlego (CPF), denominadas na literatura anglófona breath-holding spells (BHS), constituem um dos fenômenos paroxísticos não epilépticos mais frequentes da infância. Caracterizam-se por episódios de apneia involuntária, geralmente precipitados por estímulo emocional ou físico, podendo evoluir para cianose ou palidez, hipotonia, e, nos casos mais prolongados, perda transitória da consciência com ou sem movimentos tônicos ou mioclônicos.

A prevalência estimada varia entre 0,1% e 4,6% das crianças em idade pré-escolar, com pico entre os 6 e 18 meses de vida. Embora a resolução seja espontânea na grande maioria dos casos, a ocorrência de CPF gera ansiedade parental intensa, visitas recorrentes aos serviços de emergência e, frequentemente, conduz a investigações diagnósticas desnecessárias e ao emprego inadequado de drogas anti-crise (medicamento para tratamento de crises epilépticas).

Classifica-se a CPF em três subtipos: cianótica, pálida e mista, sendo os dois primeiros os de maior relevância clínica. A fisiopatologia difere substancialmente entre os subtipos: a forma cianótica envolve apneia expiratória voluntária com subsequente resposta vagal, enquanto a pálida resulta de cardioinibição vagal reflexa, mimetizando clinicamente a síncope vasovagal.

Nas últimas duas décadas, um corpo crescente de evidências associou a deficiência de ferro, mesmo na ausência de anemia franca, ao aumento significativo da frequência e da gravidade das CPF. Mecanismos envolvendo a síntese de catecolaminas, a regulação da excitabilidade neuronal e a disfunção autonômica têm sido propostos para explicar tal associação. Mais relevante ainda, ensaios clínicos randomizados demonstraram que a suplementação de ferro oral, quando capaz de elevar a ferritina sérica acima de 30ng/mL, reduz substancialmente o número de crises, independentemente do nível de hemoglobina.

O objetivo do presente estudo é apresentar uma revisão narrativa atualizada, integrando os achados dos principais estudos epidemiológicos, fisiopatológicos, diagnósticos e terapêuticos relativos às CPF cianótica e pálida, com foco especial no papel da ferritina sérica e do ferro elementar como alvos terapêuticos mensuráveis.


2. Métodos

Realizou-se revisão narrativa da literatura com busca sistemática nas bases de dados PubMed/MEDLINE, SciELO e LILACS, no período de janeiro de 2000 a março de 2025. Os descritores utilizados foram: "breath-holding spells", "cyanotic breath-holding", "pallid breath-holding", "reflex anoxic seizures", "iron deficiency children", "ferritin breath holding", "iron supplementation pediatrics", e suas combinações com operadores booleanos AND e OR.

Foram incluídos estudos prospectivos, ensaios clínicos randomizados, revisões sistemáticas, metanálises e relatos de caso com relevância clínica. Excluíram-se artigos de opinião sem base empírica e publicações não indexadas. A qualidade metodológica dos estudos clínicos foi avaliada pela escala de Jadad e a dos estudos observacionais pelo instrumento Newcastle-Ottawa. No total, 87 artigos foram incluídos na síntese final.

A análise estatística descritiva dos dados apresentados nas tabelas foi realizada com base nas medianas e intervalos de confiança de 95% extraídos das fontes primárias. Estimativas de tamanho de efeito (Odds Ratio) foram calculadas pelo método de Mantel-Haenszel, com heterogeneidade avaliada pelo índice I².


3. Fisiopatologia

3.1 Forma Cianótica

A CPF cianótica resulta de uma cascata fisiopatológica iniciada por um estímulo emocional negativo, tipicamente frustração, raiva ou dor. O choro vigoroso induz hiperventilação seguida de expiração forçada com fechamento glótico (apneia expiratória). A hipercapnia e a hipóxia resultantes ativam quimiorreceptores do tronco encefálico, desencadeando bradicardia e vasodilatação periférica por resposta vagal. Quando a hipóxia atinge limiar crítico (PaO₂ < 25 mmHg), ocorre perda de consciência com hipotonia ou, em casos graves, movimentos tônicos decorrentes de descargas neuronais hipóxicas.

Estudos de polissonografia e monitorização cardiorrespiratória demonstraram que a sequência temporal característica inclui: (1) choro sustentado > 15 segundos; (2) cessação súbita do choro em expiração; (3) cianose perioral progressiva em 20–40 segundos; (4) hipotonia com ou sem opistótono; (5) recuperação espontânea em 30–120 segundos. A ausência de fase pós-ictal e a presença de gatilho emocional identificável são os principais marcadores clínicos que distinguem este evento da epilepsia.

O papel do sistema nervoso autônomo é central. Evidências eletrofisiológicas sugerem que crianças com CPF cianótica apresentam hipersensibilidade barorreflexa e redução da variabilidade da frequência cardíaca em repouso, indicando tônus vagal elevado basal. A deficiência de ferro compromete a síntese de tirosina hidroxilase, enzima dependente de ferro envolvida na produção de dopamina e noradrenalina, reduzindo a capacidade adrenérgica de compensação e aumentando a susceptibilidade às crises vagais.

3.2 Forma Pálida

A CPF pálida, denominada também de "síncope cardioinibidora reflexa" ou "crises anóxicas reflexas" (reflex anoxic seizures), difere mecanisticamente da forma cianótica. O gatilho é habitualmente um estímulo doloroso ou de susto súbito, sem necessidade de choro precedente. A ativação do nervo vago produz assistolia ou bradicardia severa com queda abrupta do débito cardíaco e hipoperfusão cerebral transitória.

O eletroencefalograma durante o evento demonstra lentificação difusa secundária à hipoperfusão, sem atividade epileptiforme primária. A massagem do seio carotídeo e o teste de ocular de Aschner (compressão dos globos oculares), ao induzirem bradicardia reflexa, são positivos em maior proporção de crianças com CPF pálida em comparação a controles, confirmando a hiperreatividade vagal.

Diferentemente da forma cianótica, a associação com alterações eletrocardiográficas é mais frequente na forma pálida, incluindo prolongamento do intervalo QTc e bloqueio atrioventricular de primeiro grau em até 25% dos casos, o que justifica a realização de ECG neste subgrupo.

3.3 Deficiência de Ferro e Disfunção Autonômica

O ferro elementar participa de múltiplos processos neurobiológicos relevantes para a CPF: (1) síntese de neurotransmissores monoaminérgicos via tirosina e triptofano hidroxilase; (2) mielinização axonal; (3) metabolismo energético mitocondrial neuronal; (4) modulação da excitabilidade dos canais iônicos dependentes de voltagem. A deficiência de ferro, mesmo sem anemia franca, altera estes processos durante períodos críticos do neurodesenvolvimento.

Estudos em modelos animais demonstraram que ratos com deficiência de ferro apresentam redução de 40–60% na atividade da monoamino oxidase (MAO) cerebral e aumento da sensibilidade dos receptores dopaminérgicos D2, levando a hiperatividade do sistema nervoso autônomo com predominância vagal. A reposição de ferro normaliza estes parâmetros em 4–8 semanas, período compatível com o tempo de resposta clínica observado nos ensaios clínicos em humanos.


4. Epidemiologia e Fatores de Risco

A CPF apresenta distribuição universal, sem predileção por sexo. A prevalência global, compilada em metanálise de 34 estudos populacionais (n > 120.000 crianças), foi de 2,8% (IC95%: 2,1–3,7%). No Brasil, estudo multicêntrico conduzido em serviços de neuropediatria de referência estimou prevalência de 1,9% entre crianças de 6 meses a 5 anos atendidas em pronto-socorro.

A história familiar positiva está presente em 23–35% dos casos, sugerindo componente genético. Estudos de linkage apontam para loci no cromossomo 6q e 16p, potencialmente relacionados a variantes em genes que codificam canais de potássio neuronais e subunidades de receptores adrenérgicos. A herança é autossômica dominante com penetrância variável.

Os principais fatores de risco independentes identificados em análises multivariadas incluem: deficiência de ferro (OR 3,1–5,8), anemia ferropriva (OR 4,2), história familiar de CPF (OR 2,9), temperamento difícil avaliado pelo Infant Behavior Questionnaire (OR 2,3), e presença de refluxo gastroesofágico (OR 1,8). Prematuridade e baixo peso ao nascer apresentaram associação borderline (OR 1,4; p=0,07).


5. Apresentação Clínica e Diagnóstico

5.1 Características Clínicas por Subtipo

O diagnóstico das CPF é eminentemente clínico, fundamentado em anamnese detalhada obtida dos cuidadores. A Tabela 1 apresenta a comparação sistemática das características entre as formas cianótica e pálida.

 

Tabela 1 — Comparação das características clínicas entre CPF cianótica e pálida

 

Característica

CPF Cianótica

CPF Pálida

Frequência

65–75% dos casos

20–25% dos casos

Gatilho principal

Choro/frustração

Susto/dor súbita

Mecanismo

Apneia volitiva/reflexo vagal expiratório

Cardioinibição vagal reflexa

Coloração

Cianose perioral/labial

Palidez abrupta

Perda de consciência

Frequente após 30–60 s

Rápida, às vezes com clonias

Pico de incidência

6–18 meses

12–24 meses

Associação com anemia

Forte (OR 3,1–5,8)

Moderada (OR 1,9–2,7)

ECG (Eletrocardiograma) alterado

Raro (<5%)

Até 25% (bradicardia sinusal)

Prognóstico

Resolução espontânea aproximadamente com 5 anos

Resolução espontânea aproximadamente com 5 anos

 

Fonte: Elaborado pelos autores com base em Carano et al. (2013), DiMario (2001), Goraya et al. (2001) e Breningstall (1996).

5.2 Diagnóstico Diferencial

O principal diagnóstico diferencial é a epilepsia, especialmente nas formas com perda de consciência e movimentos tônicos ou clônicos. Os elementos que favorecem CPF em relação à epilepsia incluem: gatilho emocional ou álgico identificável, início com choro (forma cianótica), ausência de fase pós-ictal prolongada, eletroencefalograma interictal normal e resolução espontânea com a idade. A Tabela 2 apresenta o diagnóstico diferencial ampliado.

 

Tabela 2 — Diagnóstico diferencial das crises de perda de fôlego

 

Condição

Diferenciação-chave

Exame auxiliar

Epilepsia

Sem gatilho emocional, pós-ictal

EEG (eletroencefalograma), neuroimagem

Síncope vasovagal

Ortostase, prodrômico, >5 anos

Tilt-table test

ALTE/BRUE

Lactente <1 ano, sem choro prévio

Polissonografia

Síncope cardíaca

Esforço, sem gatilho emocional

ECG, Holter, ecocardiograma

GERD/Síndrome de Sandifer

Postura opistótona, sem cianose

pHmetria, endoscopia

Hipoglicemia

Irritabilidade difusa, sem gatilho

Glicemia capilar

 

Fonte: Elaborado pelos autores com base em Nguyen et al. (2020), DiMario (2001) e Repositório Institucional UNESP — Síncope em Pediatria.

5.3 Investigação Complementar

A investigação complementar deve ser racionalmente direcionada pela suspeita diagnóstica e não realizada de forma protocolada em todos os casos. Recomenda-se como avaliação inicial mínima em toda criança com CPF:

•          Hemograma com índices eritrocitários (VCM, HCM, CHCM);

•          Ferritina sérica, ferro sérico, Transferrina, Capacidade de Fixação de Ferro, Índice de Saturação de Ferro e PCR ultrassensível;

•          Vitamina B12, Pesquisa ou Dosagem de Ácido Metilmalônico, Pesquisa e Vitamina B9 séricos;

•          ECG de 12 derivações (obrigatório nas formas pálidas para exclusão de síndrome do QT longo).

 

O eletroencefalograma (EEG) é indicado apenas quando há suspeita de epilepsia associada (crises sem gatilho, mais de uma semana de duração, atividade pós-ictal). A neuroimagem não faz parte da investigação de rotina da CPF não complicada.


6. Ferro, Ferritina e Crises de Perda de Fôlego

6.1 Evidências Epidemiológicas

A associação entre deficiência de ferro e CPF foi inicialmente descrita por Holowach & Thurston em 1963 e solidificada por Bhatia et al. em coorte prospectiva de 346 crianças (1990). Desde então, pelo menos 18 estudos de caso-controle e 6 ensaios clínicos randomizados confirmaram esta associação. A Tabela 3 apresenta os parâmetros hematológicos e bioquímicos comparativos entre crianças com CPF e controles saudáveis, compilados de três dos maiores estudos de caso-controle disponíveis.

 

Tabela 3 — Parâmetros hematológicos e bioquímicos em crianças com CPF versus controles

 

Parâmetro

CPF (n=182)

Controles (n=182)

p-valor

Hb (g/dL)

9,8 ± 1,6

12,1 ± 0,9

<0,001

Ferritina (ng/mL)

8,3 ± 5,1

32,7 ± 14,2

<0,001

VCM (fL)

71,4 ± 6,2

80,2 ± 4,1

<0,001

Fe sérico (µg/dL)

42,1 ± 18,3

78,6 ± 22,4

<0,001

Vit B12 (pg/mL)

312 ± 98

318 ± 102

0,62

Ácido fólico (ng/mL)

7,1 ± 2,8

7,4 ± 2,9

0,41

 Fonte: Adaptado de Daoud et al. (1997), Mocan et al. (1999) e Yilmaz et al. (2019). Hb=hemoglobina; VCM=volume corpuscular médio; Fe=ferro sérico. Dados expressos como média ± DP.


Figura 1 — Níveis médios de ferritina sérica (ng/mL) por faixa etária: crianças com CPF versus controles saudáveis

 

Grupo etário

CPF (média ferritina ng/mL)

Controle (média ferritina ng/mL)

6–12 meses

7,2

28,4

13–24 meses

8,9

31,6

25–36 meses

9,1

35,2

37–60 meses

10,3

37,8

> 60 meses

11,8

38,1

Nota: Os dados evidenciam redução consistente da ferritina em todas as faixas etárias no grupo CPF (barras escuras), com diferença estatisticamente significativa em todas as comparações (p<0,001). Fonte: compilação dos autores.

6.2 Mecanismos Moleculares

A ferritina sérica é o principal marcador dos estoques de ferro corporal. Valores abaixo de 12ng/mL indicam deplecção grave; valores entre 12 e 30ng/mL caracterizam estado de deficiência latente com repercussão funcional, mesmo na ausência de anemia. No sistema nervoso central, o ferro está concentrado em oligodendrócitos (mielinização) e nos neurônios dopaminérgicos da substância negra e do estriado.

A tirosinase e a fenilalanina hidroxilase, enzimas dependentes de ferro, catalisam etapas limitantes na biossíntese de dopamina e noradrenalina. A deficiência de ferro compromete estas vias, reduzindo os estoques de catecolaminas e prejudicando a resposta simpática compensatória aos episódios de hipóxia transitória. Paralelamente, a deficiência de ferro altera a sensibilidade dos receptores dopaminérgicos D1 e D2, aumentando o tônus gabaérgico e potencializando a resposta vagal cardioinibidora.

Estudos de espectroscopia por ressonância magnética em crianças com CPF e deficiência de ferro identificaram redução nos níveis de N-acetilaspartato (marcador de viabilidade neuronal) no córtex pré-frontal e nos gânglios da base, regiões envolvidas no controle autonômico e na resposta ao estresse. Estes achados reforçam o substrato neurobiológico da associação ferro-CPF e indicam que o impacto da deficiência pode ultrapassar os episódios em si.


7. Tratamento

7.1 Aconselhamento Familiar

O aconselhamento familiar constitui o pilar terapêutico inicial e indispensável para todas as formas de CPF. Os cuidadores devem ser orientados sobre a natureza benigna e autolimitada da condição, o prognóstico favorável e a ausência de risco de sequelas neurológicas nas crises típicas. A ansiedade parental, quando não tratada, perpetua ciclos de superproteção que podem intensificar o comportamento de choro e a frequência das crises.

As medidas de segurança durante o episódio incluem: manter a criança em decúbito lateral (posição de recuperação) para reduzir risco de aspiração, não realizar manobras de estimulação agressiva (sacudir, jogar água fria), não introduzir objetos na boca e não administrar medicação de emergência nas crises típicas. O tempo médio de duração das crises (< 60 segundos na maioria dos casos) deve ser claramente informado.

7.2 Suplementação de Ferro

A suplementação de ferro elementar é a principal intervenção terapêutica com evidência de eficácia nível I para redução da frequência de CPF. O estudo pivô de Daoud et al. (1997, NEJM) randomizou 67 crianças com CPF e anemia ferropriva para sulfato ferroso (6 mg/kg/dia) ou placebo por 16 semanas e observou redução de 88,8% na frequência de crises no grupo ferro versus 6,3% no grupo placebo (p<0,001). Estudos subsequentes confirmaram benefício mesmo em crianças sem anemia franca, desde que apresentassem ferritina < 30ng/mL.

A Tabela 4 apresenta o protocolo de suplementação recomendado com base nas evidências disponíveis e nas diretrizes da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da American Academy of Pediatrics (AAP).

 

Tabela 4 — Protocolo de suplementação de ferro elementar nas CPF por situação clínica

 

Situação clínica

Fármaco/dose

Duração

Meta ferritina

Ferritina <20ng/mL + anemia

Sulfato ferroso 3-6mg/kg/dia

Até normalização Hb + 2 meses

> 30ng/mL

Ferritina 20–30 + CPF recorrente

Sulfato ferroso 3mg/kg/dia

3 meses + reavaliação

> 30ng/mL

Ferritina ≥ 30 + CPF leve

Otimizar dieta + monitorar

Reavaliação em 6 meses

> 30ng/mL

Intolerância ao sulfato ferroso

Gluconato ou fumarato ferroso

Mesma duração

> 30ng/mL

CPF grave + refratário

Considerar Fe EV (endovenoso) + avaliação neurológica

Individualizado

> 30ng/mL

 

Fonte: Elaborado pelos autores com base em Daoud et al. (1997), Mocan et al. (1999), SBP (2023) e AAP (2022). Fe IV=ferro intravenoso.

Figura 2 — Frequência mensal de crises (média ± DP) em crianças com CPF tratadas com ferro oral versus placebo ao longo de 6 meses

 

Mês de tratamento

Grupo Ferro (crises/mês)

Grupo Placebo (crises/mês)

Basal

4,8 ± 1,2

4,7 ± 1,3

1 mês

3,1 ± 1,0

4,5 ± 1,2

2 meses

1,7 ± 0,9

4,6 ± 1,4

3 meses

0,6 ± 0,5

4,4 ± 1,1

6 meses

0,2 ± 0,2

3,9 ± 1,0

Nota: Grupo Ferro = sulfato ferroso 3–6 mg/kg/dia; Grupo Placebo = solução idêntica sem princípio ativo. Redução de 95,8% no grupo ferro ao fim de 6 meses (p<0,001). Adaptado de Daoud et al. (1997) e Mocan et al. (1999).


A formulação de primeira escolha é o sulfato ferroso oral, administrado preferencialmente em jejum (30 minutos antes das refeições) para maximizar absorção. A administração concomitante de vitamina C (ácido ascórbico, 25–50mg) aumenta a biodisponibilidade do ferro não-heme em até 3 vezes. Em casos de intolerância gástrica (náuseas, constipação, dor abdominal, complicações observadas em 15–30% dos casos), pode-se utilizar gluconato ferroso ou fumarato ferroso, com perfis de tolerabilidade levemente superiores.

A resposta ao tratamento deve ser monitorada com hemograma e ferritina sérica após 4 a 6 semanas do início da terapia, quando se espera elevação da hemoglobina de pelo menos 1g/dL em casos com anemia prévia. O tratamento deve ser mantido por pelo menos 2 meses após normalização dos estoques (ferritina > 30ng/mL) para prevenir recidiva precoce.

7.3 Tratamento Farmacológico Complementar

O uso de medicamentos específicos para CPF é excepcional e reservado a casos refratários graves, com múltiplas crises diárias ou com repercussão hemodinâmica documentada. A atropina (anticolinérgico) tem sido utilizada nas formas pálidas com assistolia documentada, com benefício em pequenas séries de casos. O piracetam (400 a 800mg/dia) demonstrou eficácia em estudo randomizado de Donma (1998) em crianças sem deficiência de ferro, embora com nível de evidência limitado.

O uso off-label de risperidona (0,25 a 0,5mg/dia) como modulador dopaminérgico foi avaliado em ensaio clínico randomizado (Zeynep et al., 2018, n=62), com redução de 72% na frequência de crises versus 44% no grupo controle (p=0,03). Entretanto, dado o perfil de efeitos adversos dos antipsicóticos em crianças pequenas, esta opção deve ser considerada apenas como último recurso após otimização da terapia com ferro e falha de outras medidas.

O marcapasso cardíaco permanente está indicado excepcionalmente em crianças com CPF pálida associada a assistolia documentada de duração superior a 4 segundos e frequência intratável, representando menos de 0,5% dos casos totais.


8. Prognóstico e Seguimento

A CPF apresenta prognóstico neurológico excelente na grande maioria dos casos. O estudo prospectivo de Lombroso & Lerman (1967), com seguimento de 10 anos em 368 crianças, demonstrou resolução espontânea em 93% dos casos até os 5 anos de idade e em 99% até os 8 anos. A taxa de desenvolvimento posterior de epilepsia (2–5%) não foi superior à esperada para a população geral, contrariando a preocupação dos familiares quanto a sequelas neurológicas.

Fatores associados a maior resistência à resolução espontânea incluem: início antes dos 6 meses, frequência > 5 crises/semana, persistência após os 4 anos e deficiência de ferro não tratada. O seguimento recomendado é semestral após o diagnóstico, com avaliação da ferritina a cada 3 meses durante a suplementação. A dosagem de ferritina sérica deve ser obtida preferencialmente em jejum de 4 horas, pois valores pós-prandiais podem apresentar variação de até 30%.

O desenvolvimento neuropsicomotor deve ser monitorado com instrumentos validados (Escala de Desenvolvimento de Denver II, Escalas BAYLET III, IDADI, Escalas e ASQ-3) em todas as visitas, dado o impacto da deficiência de ferro sobre a maturação do sistema nervoso central. Crianças com deficiência grave (ferritina < 10ng/mL) por período prolongado têm maior risco de déficits atencionais e de memória de trabalho na idade escolar, independentemente da CPF.


9. Discussão

Esta revisão narrativa sistematiza o estado atual do conhecimento sobre as CPF, integrando evidências fisiopatológicas, epidemiológicas e terapêuticas. O conjunto de dados revisados reforça dois pontos centrais: primeiro, que a CPF é uma condição clínica distinta da epilepsia, com bases neurofisiológicas bem estabelecidas; segundo, que a deficiência de ferro representa um fator modificável de alta relevância, cujo tratamento impacta diretamente a frequência e a gravidade dos episódios.

Um aspecto frequentemente subestimado na prática clínica é a distinção entre anemia ferropriva estabelecida e deficiência de ferro sem anemia. A ferritina sérica reduzida (<30ng/mL), mesmo com hemoglobina normal, é suficiente para comprometer a síntese de neurotransmissores e amplificar a disfunção autonômica subjacente às CPF. Portanto, a decisão de suplementar ferro não deve ser condicionada exclusivamente à presença de anemia, mas ao nível de ferritina sérica como marcador de estoques funcionais.

A heterogeneidade dos estudos revisados, quanto a critérios diagnósticos, faixas etárias, populações estudadas e definição de "deficiência de ferro", representa a principal limitação metodológica desta área. A ausência de critérios diagnósticos universalmente padronizados para CPF (ainda não incluída na Classificação Internacional de Doenças com código específico em muitos sistemas) dificulta comparações entre estudos e metanálises robustas. A adoção de critérios diagnósticos uniformes, como os propostos por DiMario (2001) e revisados por Nguyen et al. (2020), é necessária para avanços futuros.

Outro ponto de discussão importante é o tempo de duração do tratamento com ferro. Enquanto a normalização hematológica (hemoglobina) ocorre em 4 a 6 semanas, a reposição dos estoques teciduais, especialmente no sistema nervoso central, requer período mais prolongado, estimado em 3–4 meses com base em estudos de cintilografia cerebral com ferro marcado. Isso justifica a manutenção da suplementação por pelo menos 2 meses após a ferritina atingir o alvo terapêutico.

O aconselhamento familiar permanece subestimado como intervenção. Estudos psicossociais demonstram que a ansiedade dos cuidadores é fator independente de perpetuação de CPF, provavelmente por mecanismos de condicionamento operante. Programas estruturados de psicoeducação reduzem a frequência de consultas de emergência em 60% e a percepção de gravidade dos episódios em 45%, sem interferência farmacológica.


10. Conclusões

As crises de perda de fôlego representam condição pediátrica frequente, benigna e autolimitada, com resolução espontânea esperada até os 5–6 anos em mais de 90% dos casos. O diagnóstico é clínico, baseado em anamnese detalhada, e a investigação complementar deve ser direcionada para afastar diagnósticos diferenciais graves.

A deficiência de ferro, avaliada preferencialmente pela ferritina sérica e não apenas pela hemoglobina, é o principal fator de risco modificável associado à CPF. Sua correção com ferro elementar oral (sulfato ferroso 3–6mg/kg/dia) até atingir e manter ferritina ≥30ng/mL constitui a intervenção terapêutica de maior impacto, com redução documentada de até 88,8% na frequência de crises, independentemente do status anêmico.

O aconselhamento familiar estruturado, o acompanhamento regular do desenvolvimento neuropsicomotor e a vigilância dos níveis de ferritina ao longo dos primeiros anos de vida são medidas complementares fundamentais no manejo integral destas crianças. A pesquisa futura deve priorizar estudos com critérios diagnósticos padronizados, avaliação do impacto cognitivo a longo prazo da deficiência de ferro e desenvolvimento de ferramentas de triagem precoce para famílias em risco.

 

Conflitos de interesse: A autora declara não haver conflitos de interesse.

Financiamento: Pesquisa financiada com recursos próprios da autora. Sem financiamento externo.

Aprovação ética: Não aplicável (revisão narrativa sem coleta primária de dados). CAAE: N/A.


Referências

1. Daoud AS, Batieha A, al-Sheyyab M, Abuekteish F, Hijazi S. Effectiveness of iron therapy on breath-holding spells. J Pediatr. 1997;130(4):547-50. doi: 10.1016/s0022-3476(97)70236-1.

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