O desgaste invisível da convivência humana
- Clinica NeuroGandolfi

- há 2 horas
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Há dias em que o peso maior não vem do corpo, mas daquilo que sustenta nossas crenças mais básicas sobre convivência. Não é exaustão física, é um cansaço interno, silencioso, provocado pela percepção de que a maldade humana não é um desvio raro, mas uma possibilidade sempre presente. Mais do que isso, uma possibilidade comum, banalizada, incorporada ao cotidiano.
A violência humana raramente se apresenta de forma espetacular. Ela não costuma surgir com aparência monstruosa ou discursos explícitos. Na maior parte do tempo, se manifesta de modo discreto, diluída na rotina, protegida pela normalidade aparente. Caminha junto com a indiferença, encontra abrigo em justificativas frágeis e cresce à sombra da omissão coletiva. A maldade não precisa se anunciar. Basta que a empatia falhe.
O que mais inquieta não é o ódio declarado, mas a frieza organizada. Não é a perda momentânea de controle, mas o cálculo silencioso. Existe a violência impulsiva, mas há outra, mais recorrente e talvez mais grave, que nasce da incapacidade de reconhecer o outro como alguém digno de consideração. Quando uma pessoa deixa de ser percebida como sujeito e passa a ser tratada como objeto, qualquer limite pode ser ultrapassado.
A história humana oferece exemplos abundantes desse processo. Em nome de ideologias, crenças, identidades ou interesses, sociedades inteiras aprenderam a justificar o injustificável. O mecanismo se repete com precisão. Primeiro, o outro é reduzido a um rótulo. Depois, passa a ser visto como ameaça ou obstáculo. Por fim, torna-se descartável. É assim que se agride sem remorso. É assim que se mata sem culpa. É assim que se segue a vida como se nada tivesse acontecido.
No entanto, a maldade não se restringe a episódios históricos extremos. Ela está presente nas pequenas crueldades do dia a dia, nos gestos que se repetem até serem aceitos. Aparece em comentários que ferem, em atitudes que humilham, em violências disfarçadas de humor ou ironia. Está no prazer em expor o outro, em reduzi-lo, em fazê-lo encolher diante dos olhos de quem assiste.
Essa dinâmica muitas vezes se alimenta da necessidade constante de se sentir superior. Mesmo que isso exija esmagar alguém mais vulnerável. O mais perturbador é perceber que esse comportamento não depende de ignorância. Pessoas instruídas também são capazes de atos cruéis. Cultura não impede abusos. Conhecimento não garante ética. O problema não é a falta de informação, mas a falência moral e a recusa em assumir responsabilidade pelas próprias ações.
Outro elemento central é a facilidade com que a violência encontra plateia. Observa-se, comenta-se, compartilha-se. A intervenção, porém, é rara. A indignação costuma ser breve. O choque inicial logo se dissolve. O sofrimento vira notícia, depois dado, depois esquecimento. Aos poucos, instala-se o costume. E o costume, nesse contexto, se transforma em cumplicidade silenciosa.
Sempre que alguém fere um indivíduo indefeso, seja uma criança, um idoso, um animal ou qualquer pessoa vulnerável, não está apenas causando um dano isolado. Está rompendo o pacto básico que sustenta a vida em sociedade. Afirma que a força vale mais do que o cuidado e que o interesse próprio se sobrepõe à dignidade alheia. Nesse ponto, a maldade deixa de ser individual e passa a ser coletiva.
Onde não há consequência, há autorização. Onde não há responsabilização, há repetição. Limites não existem para vingança, mas para proteção. A justiça não serve apenas para corrigir o que já ocorreu, mas para preservar o que ainda pode ser evitado. Ainda assim, a maldade não define a humanidade. Ela é uma possibilidade, não um destino. A bondade existe, mas exige escolha, atenção e coragem contínua.
Dra. Valéria Gandolfi Geraldo
Pediatria - Neurologia Pediátrica
CRM-SP: 105.691 / RQE: 26.501-1






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